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Economia

A “calamidade das commodities” e a inflação em todo o mundo

O desmonte das políticas de estoques públicos reguladores de alimentos interessa ao Brasil? A agricultura, em diversos países, costuma ser encarada como uma questão de segurança nacional

Publicado em 21 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

21 mar 2022 às 02:00
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

Agricultura usará cada vez mais máquinas
Em 2020, no primeiro trimestre, discussão sobre estoques reguladores deveria ter merecido uma maior atenção dos gestores públicos, pois estava claro que os preços dos alimentos subiriam logo adiante Crédito: Pixabay
Uma matéria da publicação britânica The Economist, da edição de 12 de março, trouxe informações relevantes para a discussão dos efeitos inflacionários que estamos vivendo a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia. Não convém esquecermos que o mundo já vivia, ao longo da pandemia de Covid-19, significativos processos inflacionários, oriundos de problemas nas cadeias de suprimentos globais. Piorou o que estava ruim a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia?
A pandemia não terminou, infelizmente, e, de acordo com The Economist, “a invasão da Ucrânia pela Rússia está desencadeando o maior choque de commodities desde 1973 e uma das piores interrupções no fornecimento de trigo desde a Primeira Guerra Mundial”. Os efeitos ainda serão sentidos nas sociedades.
Segundo a matéria, “as pessoas comuns ainda não sentiram os efeitos completos do aumento das contas de gasolina, dos estômagos vazios e da instabilidade política”. Consta também na matéria que os índices globais de preços das commodities subiram 26% em relação ao início de 2022. A inflação brasileira, por sua vez, foi a maior para fevereiro desde 2015, acumulando um crescimento de 10,54% em doze meses, segundo o IBGE. Portanto, espera-se que os efeitos da crise na Europa agravem as pressões inflacionárias no Brasil.
Leonardo Vieceli, em matéria assinada na Folha de S. Paulo, em 11 de março, apontou que, “a partir de março, a inflação tende a receber novas pressões, com os reflexos econômicos da guerra entre Rússia e Ucrânia”. Pioraram as expectativas dos agentes econômicos para o ano. O jornalista destacou o recente “mega-aumento de combustíveis no Brasil”, uma alta de 18,8% na gasolina, de 16,1% no gás de cozinha e de 24,9% no óleo diesel.
Conforme descreveu Vieceli, nos últimos doze meses, “o que mais pesou na inflação, de modo geral, foram os combustíveis, segundo o IBGE”. O índice de difusão da inflação ficou acima de 70% pelo terceiro mês consecutivo, ou seja, a disseminação da inflação é expressiva na economia. Portanto, é razoável esperarmos que o aumento recente dos combustíveis provocará aumentos de preços ao longo de cadeias produtivas oligopolistas ou monopolistas de bens e serviços.
A busca por isolar com sanções a Rússia vem se mostrando problemática, pois ela é um dos maiores exportadores de commodities do mundo. Para The Economist, um embargo global completo, imposto pelos EUA, “poderia enviar o preço do petróleo para 200 dólares o barril”. De acordo com a publicação britânica, os efeitos dessa “calamidade das commodities” poderá ser brutal. A economia mundial é muito menos intensiva em energia por unidade do PIB do que na década de 1970. Entretanto, a inflação global, já em 7%, poderá subir mais dois ou três pontos percentuais.
Para os países que enfrentarão eleições em 2022, The Economist ponderou que, no campo político, os seus líderes terão “que enfrentar eleitores furiosos”. Elevações de preços de alimentos entre 2007 e 2008, afirmou The Economist, levaram a tumultos em 48 países, e já há sinais de pânico e agitação hoje. Nesse sentido, a prioridade da gestão pública responsável deveria ser a garantia da oferta de bens básicos e essenciais à manutenção da vida humana. A responsabilidade social é um importante pilar da gestão pública.
O desmonte das políticas de estoques públicos reguladores de alimentos interessa ao Brasil? A agricultura, em diversos países, costuma ser encarada como uma questão de segurança nacional. Políticas públicas de estoques reguladores são permanentes em diversos países democráticos ou não. Por que seria diferente no Brasil? Em 2020, no primeiro trimestre, essa discussão deveria ter merecido uma maior atenção dos gestores públicos, pois estava claro que os preços dos alimentos subiriam logo adiante, conforme apontava então a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).
A imprensa nos informou mais recentemente, no dia 11 de março, que o governo federal lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, que objetiva ampliar a exploração de insumos locais e elevar a produção de fertilizantes em fábricas nacionais para reduzir a dependência externa. Busca-se com o plano, noticiou a imprensa, reduzir as importações dos atuais 85% para cerca de 60% em trinta anos, além de transformar o Brasil em fornecedor global de potássio. Trata-se de um plano executável ou tímido em termos de ambições nacionais?
Pode ser que a invasão da Ucrânia pela Rússia tenha chamado a atenção de muitos para o fato de que no concerto das nações, principalmente durante contestações ou transições de hegemonia, os países precisam construir e preservar as suas reservas estratégicas de recursos e capacidades tecnológicas para enfrentar jogos de pressões e coerções na arena global. A ideia ingênua de uma “paz perpétua” entre diferentes sociedades não passou de uma utopia liberal pouco praticada pelos centros hegemônicos e seus contestadores históricos.
Em um artigo publicado na Folha de S.Paulo, no dia 14 de março, o jornalista Igor Gielow, enviado especial na cobertura da guerra entre Rússia e Ucrânia, recordou que, durante a crise dos mísseis de Cuba em 1962, o presidente Kennedy mandou distribuir para os comandantes das Forças Armadas dos Estados Unidos o livro “Os Canhões de Agosto”, de autoria da historiadora norte-americana Barbara Tuchman. O livro trata da eclosão da Grande Guerra, em 1914, que marcou o fim da Belle Époque.
Pouco antes, por volta de 1910, muitos acreditavam, de acordo com Tuchman, que “na presente interdependência financeira e econômica das nações, a guerra tornara-se não lucrativa; o vencedor sofria tanto quanto o vencido, de modo que nenhuma nação cometeria a tolice de iniciar uma guerra”. O livro da historiadora foi publicado pela Biblioteca do Exército no Brasil. Segundo ponderou Igor Gielow, “políticas de alianças rígidas, certezas obsoletas e percepções incorretas fizeram ao fim o mundo desabar no grande conflito, que só teve seu desfecho na ainda mais mortífera Segunda Guerra Mundial, 25 anos depois”.
A pobreza e a fome avançaram no Brasil nos últimos tempos, infelizmente. Nesse sentido, destaco a matéria publicada nesta Gazeta, no dia 14 de março, assinada por Aline Nunes, que revelou um quadro dramático, histórico e estrutural, do ponto de vista social no Espírito Santo. Mais de 390 mil capixabas não têm comida para se alimentar todos os dias, sendo que 37,5% das pessoas estão entre a pobreza e a extrema pobreza entre nós. Esse e outros quadros dramáticos demandam debates públicos qualificados em 2022, tendo em vista o provável acirramento das tensões globais.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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