Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Estereótipos

Um mea-culpa diante da reprodução de padrões na sociedade

A maternidade é associada à mulher como a primeira “função”, como o “destino” inevitável, especialmente quando nos deparamos com mulheres em relacionamentos estáveis e/ou casadas

Públicado em 

08 jul 2020 às 05:00
Renata Bravo

Colunista

Renata Bravo

Gravidez
Gravidez é sempre uma das primeiras coisas associadas às mulheres Crédito: Pixabay
Dia desses, estava eu passeando pelo Twitter quando vi a deputada federal Sâmia Bonfim anunciando: “Ainda hoje, vou contar pra vocês uma grande notícia”. Choveram comentários presumindo que ela estaria grávida. Nada disso. A notícia foi o lançamento de sua pré-candidatura à Prefeitura de São Paulo. No mesmo dia, meu celular apita com uma mensagem de uma amiga dizendo que tinha uma coisa pra me contar e na hora eu respondi: “você tá grávida!”. Dito e feito. E, no meu caso, ou melhor, da minha amiga, era isso mesmo: ela está grávida.
Que coincidência. Fiquei muito feliz pela minha amiga e já conto as horas pra ver o rostinho da criança. Por outro lado, esses dois fatos me fizeram refletir nesses dias sobre como eu e tantas outras pessoas que estamos diariamente tentando desconstruir padrões pré-estabelecidos, que nos apresentamos como progressistas e que lutamos para romper com papeis socialmente construídos, acabamos por reproduzir arquétipos.
A maternidade é associada à mulher como a primeira “função”, como o “destino” inevitável, especialmente quando nos deparamos com mulheres em relacionamentos estáveis e/ou casadas. Quando essas mulheres nos dizem que têm novidade para contar, a primeira ideia que nos vem à mente é a gravidez. Nos dois casos tratados acima não pensamos em avanço de carreira no trabalho ou no lançamento de pré-candidatura, como no caso da Sâmia, ainda que este assunto esteja tão em voga já que estamos em período de pré-campanha.
Por isso, faço aqui meu mea-culpa. Não estou imune à reprodução de estereótipos, por mais engajada que eu seja. Infelizmente não. Para a minha amiga não foi ofensa nenhuma; pelo contrário, trocamos áudios, mensagens e ficamos de marcar uma videochamada para ela me contar como tem sido esse momento desde a descoberta. Acredito que para a Sâmia também não, afinal ela tuitou logo depois achando graça da torcida pela gravidez, mas informando que “ainda não”.
Só que para uma parcela enorme de mulheres, essa associação é muito cruel, já que muitas portas são fechadas para elas em razão da maternidade, muita violência é praticada contra elas e muitas dessas mulheres são expostas a situações de vulnerabilidade social.
Especialmente agora, em tempos de pandemia e maiores dificuldades de acesso às condições mínimas de dignidade, são essas mulheres-mães que estão com uma carga elevadíssima de responsabilidades, dores e lutas: aquelas que estão podendo ficar com os filhos, estão dedicando mais tempo aos afazeres domésticos, estão tendo que lidar com o ensino à distância das crianças e estão tendo que trabalhar mentalmente as dificuldades e impossibilidades de retorno ao trabalho presencial enquanto as creches e escolas não retomarem suas atividades. Minha mea culpa, por si só, não basta. Vou refletir e farei mais; assim prometo.

Renata Bravo

Renata Bravo assina uma das colunas de A Gazeta

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Páscoa é a liberdade para todas as pessoas
Imagem de destaque
Chefe de polícia do ES é denunciado à PF por suspeita de coação a delegado
Imagem de destaque
A Guarderia é apenas ponta do iceberg

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados