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Café conilon

O grito de independência do cafeicultor do ES

Como capixaba e sócio da XP, que movimenta 40% do volume de commodities agrícolas na B3, foi uma honra ter participado do primeiro dia de negociações de contratos do café conilon aqui no Brasil. Foi um dia histórico

Publicado em 02 de Outubro de 2024 às 02:00

Públicado em 

02 out 2024 às 02:00
Rafael Furlanetti

Colunista

Rafael Furlanetti

Eu sou de São Gabriel da Palha e estudei na escola da Cooabriel, a Cooperativa Agrária dos Cafeicultores, com mais de 7 mil produtores associados. Tenho orgulho de ter nascido na cidade que é a capital do café conilon robusta. Por isso, na última terça-feira, dia 23, fiquei muito feliz de ir à sede da bolsa de valores de São Paulo, a B3, para o lançamento da negociação do contrato futuro do café conilon.
O início da negociação do contrato futuro de café conilon na B3 é um grito de independência do cafeicultor capixaba. Tão importante quanto saber produzir café bom – e isso o Espírito Santo faz muito bem - é ter os melhores mecanismos de negociação à disposição. É necessário para o setor dar um salto de crescimento.
O Espírito Santo é referência no desenvolvimento da cafeicultura do conilon, com sustentabilidade, inovação e alta produtividade. É responsável por três de cada quatro sacas de café conilon produzidas pelo Brasil – que é o segundo produtor mundial, atrás apenas do Vietnã.
Mas, até a semana passada, o café conilon colhido no Brasil só era negociado na bolsa de valores de Londres. Com isso, a definição do preço era feita lá fora e não tinha uma boa correlação com os preços do mercado brasileiro. Além disso, apenas os maiores produtores tinham acesso à bolsa londrina.
Agora isso vai mudar. Ao fazer a precificação na B3, cria-se outra oportunidade para esse tipo café tão importante para a economia do Espírito Santo. Negociando na bolsa brasileira, os pequenos produtores e as cooperativas vão ter o mesmo acesso dos grandes a mecanismos financeiros importantes: poderão fechar seus contratos com uma trava de preço para vendas futuras, ou seja, terão uma garantia de negócios na próxima safra. O contrato do café conilon será cotado em reais e não em dólar, como é o caso do café arábica, a espécie mais conhecida e comum.
Os resultados são palpáveis. Primeiro, democratiza o acesso dos cafeicultores a melhores condições de negociação. No Espírito Santo, o tamanho médio das lavouras é de oito hectares, e quem cuida da produção são famílias, não grandes empresas agrícolas como no caso de produtos como a soja, que têm estrutura financeira à disposição.
Segundo, dá independência para o cafeicultor se planejar, sabendo que tem assegurado um ganho na próxima safra. Isso é fundamental não só para obter melhores valores, mas para o produtor se proteger financeiramente de flutuações nos preços. Um agricultor capixaba terá acesso ao que se chama no mercado financeiro de ferramenta de hedge.
Os contratos futuros terão também a possibilidade de entrega física. O cafeicultor poderá estocar o café em armazéns credenciados pela B3. Cada contrato equivalerá a 100 sacas de 60kg do grão cru, e os vencimentos serão nos meses ímpares do ano: janeiro, março, maio, julho, setembro e novembro.
Saca de café conilon estocada em Linhares, Norte do ES
Saca de café conilon estocada em Linhares, Norte do ES Crédito: Abdo Filho
Terceiro, a negociação na B3 chama a atenção para o café conilon, que é excelente, mas menos conhecido que o do tipo arábica, abrindo a possibilidade de atrair novos investidores. Embora a exportação esteja aumentando, a maior parte do consumo do café conilon é feita no Brasil mesmo, e ele é menos conhecido do público. Dica para quem gosta de um cafezinho e quer diferenciar o conilon do arábica: o conilon tem o dobro da cafeína, menos acidez e maior amargor.
Para mim, como capixaba e sócio da XP, que movimenta 40% do volume de commodities agrícolas na B3, foi uma honra ter participado do primeiro dia de negociações de contratos do café conilon aqui no Brasil. Foi um dia histórico.

Rafael Furlanetti

Capixaba de São Gabriel da Palha, é sócio e diretor de Relações Institucionais da XP e presidente da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias). Escreve quinzenalmente neste espaço sobre empreendedorismo, inovação e negócios ao público do Espirito Santo

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