O início da negociação do contrato futuro de café conilon na B3 é um grito de independência do cafeicultor capixaba. Tão importante quanto saber produzir café bom – e isso o Espírito Santo faz muito bem - é ter os melhores mecanismos de negociação à disposição. É necessário para o setor dar um salto de crescimento.
O Espírito Santo é referência no desenvolvimento da cafeicultura do conilon, com sustentabilidade, inovação e alta produtividade. É responsável por três de cada quatro sacas de café conilon produzidas pelo Brasil – que é o segundo produtor mundial, atrás apenas do Vietnã.
Mas, até a semana passada, o café conilon colhido no Brasil só era negociado na bolsa de valores de Londres. Com isso, a definição do preço era feita lá fora e não tinha uma boa correlação com os preços do mercado brasileiro. Além disso, apenas os maiores produtores tinham acesso à bolsa londrina.
Agora isso vai mudar. Ao fazer a precificação na B3, cria-se outra oportunidade para esse tipo café tão importante para a
economia do Espírito Santo. Negociando na bolsa brasileira, os pequenos produtores e as cooperativas vão ter o mesmo acesso dos grandes a mecanismos financeiros importantes: poderão fechar seus contratos com uma trava de preço para vendas futuras, ou seja, terão uma garantia de negócios na próxima safra. O contrato do café conilon será cotado em reais e não em dólar, como é o caso do café arábica, a espécie mais conhecida e comum.
Os resultados são palpáveis. Primeiro, democratiza o acesso dos cafeicultores a melhores condições de negociação. No Espírito Santo, o tamanho médio das lavouras é de oito hectares, e quem cuida da produção são famílias, não grandes empresas agrícolas como no caso de produtos como a soja, que têm estrutura financeira à disposição.
Segundo, dá independência para o cafeicultor se planejar, sabendo que tem assegurado um ganho na próxima safra. Isso é fundamental não só para obter melhores valores, mas para o produtor se proteger financeiramente de flutuações nos preços. Um agricultor capixaba terá acesso ao que se chama no mercado financeiro de ferramenta de hedge.
Os contratos futuros terão também a possibilidade de entrega física. O cafeicultor poderá estocar o café em armazéns credenciados pela B3. Cada contrato equivalerá a 100 sacas de 60kg do grão cru, e os vencimentos serão nos meses ímpares do ano: janeiro, março, maio, julho, setembro e novembro.
Terceiro, a negociação na B3 chama a atenção para o café conilon, que é excelente, mas menos conhecido que o do tipo arábica, abrindo a possibilidade de atrair novos investidores. Embora a exportação esteja aumentando, a maior parte do consumo do café conilon é feita no Brasil mesmo, e ele é menos conhecido do público. Dica para quem gosta de um cafezinho e quer diferenciar o conilon do arábica: o conilon tem o dobro da cafeína, menos acidez e maior amargor.
Para mim, como capixaba e sócio da XP, que movimenta 40% do volume de commodities agrícolas na B3, foi uma honra ter participado do primeiro dia de negociações de contratos do café conilon aqui no Brasil. Foi um dia histórico.