Pelas ruas o capixaba carrega estampado em seu rosto os traços da crise. A pandemia afeta a vida de todos em diversas áreas e campos de atuação. Exige que se repense as formas de agir e de se comportar. Pede conformidade e adaptação a esta difícil realidade. Desafia autoridades e coloca em suspenso o que está posto, regras legitimadoras das relações sociais e do convívio.
Instituições seculares constituídas, legitimadoras de costumes, organizadoras das regras sociais, têm a sua importância relegada frente à maior crise sanitária já instalada entre nós. Onde é melhor estudar? Em casa? Na escola? E alimentar a fé? Por que abrir as escolas se os índices de mortes estão altos? E os templos? Como ficam as igrejas se fecharem as portas?
Essas questões estão no cotidiano dos capixabas. Nas ruas, em família e nos grupos de comunicação instantânea (zap), o que mais se vê e ouve (áudios) é esse debate, bem polarizado, sobre as decisões que afetam a vida de todos. Mas quando se fala em igrejas, é como tocar em um tabu. Por mais que se discorde, não tem como avançar muito num debate com posições demarcadas em relação à fé. Mas é possível entender um pouco o motivo disso.
Com o sociólogo Émile Durkheim aprendemos que “há na religião algo de eterno que sobrevive a todos os símbolos” e, em nosso tempo, as igrejas se tornaram ícones de congregação e comunhão dos crentes. Por ser algo vivo e dinâmico, a religião, ao longo do tempo, parece sempre mais apta a se transformar e se fortalecer, ao invés de desaparecer.
Isso ficou muito explícito no debate posto sobre o necessário fechamento das igrejas e seu funcionamento regulado nestes tempos difíceis da pandemia. Os sentimentos dos crentes, algo presente, caracteriza um valor caro às igrejas e a seus dirigentes. Trata-se de vidas e de uma fé que não tem como ser ilusória.
A crença do povo e suas manifestações religiosas não são algo inferior. Portanto, não podem ser vistas e julgadas como algo de menor valor se comparada às ciências. A fé e a razão podem e devem dialogar a ponto de conquistarem o que mais importa para todos: o respeito e o valor da vida humana.
Como bem disse Santo Agostinho, teólogo, filósofo e um dos maiores santos da Igreja Católica, a razão e a fé agem em conjunto e complementaridade, portanto são verdadeiras e sem contradição. Em tempos como este, precisamos de ambas, religião e ciência. Esta nos deu a vacina, que está salvando vidas, e com isso nos eu também a esperança da tão sonhada normalidade social. A religião resgata a autoconfiança individual e a solidariedade familiar, ausentes neste tempo de aridez.
Segundo Durkheim, a religião, para os crentes, tem a função de fazer agir e ajudar a viver, e os mantém vivos. “O fiel que comungou com seu Deus não é apenas um homem que vê verdades novas que o incrédulo ignora. É um homem que pode mais. Ele sente em si força maior para suportar as dificuldades da existência e para vencê-las. Acredita-se salvo do mal. O primeiro artigo de qualquer fé é a crença na salvação pela fé.”
Como sabedores da importância e do valor da fé e das igrejas para os fiéis crentes e para toda a sociedade capixaba, cabe aos seus líderes religiosos, pastores e padres, nestes tempos duros de aflição e incerteza, buscar o discernimento por meio do bom senso e do respeito à vida, quando forem usar os seus templos.
Com esta liberdade regulada, por meio de decretos, é possível manter a comunidade de fé e comunhão, salvar vidas e ainda não deixar de ser esta referência de fé importante e necessária para todos os capixabas praticantes.