Quem "perde tempo" com análises de informações que recebe no seu dia a dia? É o que maioria das pessoas pensa, quando se trata de verificar com mais precisão a enxurrada de dados despejados em seus aparelhos de celular e notebooks. Quem concorda com essa tese são Thaller e Susten, autores do livro "Nudge: como tomar melhores decisões sobre saúde, dinheiro e felicidade". Para eles, as pessoas estão muito ocupadas e a vida é muito complicada para perder tempo. Nestes casos, elas tendem a usar regras gerais para tomar decisões ou seguir a opinião da maioria.
Se no cotidiano as pessoas agem assim, imagine quando o assunto é política e eleição de candidatos a vereador e prefeito na Grande Vitória. Para algumas, as paixões se inflamam; enquanto outras não estão nem aí. Agora, pense como está a eleição nesta pandemia: com distanciamento social; chuva o tempo todo; número excessivo de candidatos a prefeito e a vereador, devido ao fim da coligação proporcional.
Com esse cenário, o corpo a corpo, cena comum nesta época, ficou mais difícil. As pessoas não querem se expor, e a tensão da disputa política se voltou para o meio digital. Aí entra em cena uma personagem, já conhecida de todos, que age com requinte de maldade, as fake news. Com este modelo de eleição, há uma intensificação de ataques a políticos com notícias falsas na internet, de modo mais evidente, nas redes sociais.
As fake news, crime que se comete contra a democracia, estão associadas ao discurso de ódio e grupos considerados fascistas. A sua principal característica, nas campanhas, é a sede de poder. Para matar essa sede, os criminosos partem para o vale-tudo, na tentativa de vencer o pleito. O que pretendem é mostrar uma versão da realidade que não existe. Construída, manipulada e distorcida, com a finalidade de favorecer os interesses de determinado partido político. A todo custo tentam impor essa realidade como modelo de verdade.
Eles se valem do fato de que notícias falsas ganham mais destaque em relação às verdadeiras. Pesquisas apontam que parcela significativa das pessoas expostas a notícias falsas, no calor de uma campanha eleitoral, tendem a se lembrar do falso evento noticiado, mesmo que ele jamais tenha acontecido. É o que diz a psicóloga cognitiva Elizabeth Loftus, uma das maiores autoridades mundiais no estudo de memórias falsas.
Como alma gêmea de muitas campanhas, na Grande Vitória, as fake news seguem lado a lado da acirrada disputa política-eleitoral. Mas de onde vem tanta notícia falsa? É possível prever ou construir um perfil dos candidatos e cenários em que as fake news são mais usadas? Ao observar algumas disputas nas redes sociais, materiais em jornais e sites de noticias sobre as eleições, dá para traçar um perfil aproximado de candidatos e grupos políticos que usam as notícias falsas para se favorecer.
Não precisa ser nesta ordem, mas candidatos que estão em campanha polarizada, onde os ânimos se acirram mais, os cabos eleitorais partem para todo tipo de ataque ao adversário. Esses grupos tendem a usar mais fake news. Depois, candidatos de oposição à máquina pública, com a ânsia de denunciar as irregularidades, tendem a produzir notícias falsas para desqualificar o adversário.
Em seguida temos os candidatos despreparados, que não têm legado, nem causa e, portanto, não construíram uma base eleitoral. Esses costumam apelar para o ataque aos adversários, tidos como mais fortes. Por último, candidatos que se colocam na disputa em algum partido só para fazer número, mas são levados a acreditar que podem vencer a eleição. Esse tipo de candidato é conhecido franco-atirador, afinal a fidelidade ao grupo político pode lhe render algum benefício futuro.
Com isso, o contrato social, que deveria ser construído na relação com o eleitor, passa longe de muitas campanhas eleitorais. Esses candidatos que praticam fake news cometem crime e tornam a festa da democracia um espaço judicializado. Quem perde é a população capixaba, pois a Justiça Eleitoral não dá conta do volume de denúncias e demora demais para exigir a remoção de conteúdo falso. Para solucionar esse problema, é preciso apoiar o jornalismo construído em fatos; mas ao mesmo tempo verificar com rapidez e punir de forma exemplar os candidatos e seus cabos eleitorais, criminosos da fake news.