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Gestão pública

Lixo nas ruas: é preciso reconhecer valor dos catadores de recicláveis

Novos prefeitos têm uma tarefa árdua de rever o modelo atual de coleta e propor novas saídas, mais ousadas e criativas, para que o lixo, ao invés de rejeito, se torne fonte de riqueza e renda

Publicado em 01 de Dezembro de 2020 às 05:00

Públicado em 

01 dez 2020 às 05:00
Paulo Brandão

Colunista

Paulo Brandão

Lixo acumulado na unidade de Transbordo em Resistência após greve dos motoristas de caminhão de limpeza
Lixo acumulado na Unidade de Transbordo em Resistência, Vitória, após greve de profissionais de coleta e limpeza Crédito: Vitor Jubini
É dezembro, fim de ano, mês de confraternizar e trocar presentes. Apesar da pandemia e da crise econômica, as expectativas para o aumento nas vendas é muito grande entre os lojistas. Soma-se a isso mais consumo, descarte de embalagens e um consequente aumento na produção de resíduos que vão pra lata de lixo. Neste tempo de festas de fim de ano, o conhecido lixo nosso de cada dia se multiplica aos montes. Afinal, somos uma sociedade que depende do consumo para desenvolver e se manter.
E, por falar em consumo, como não tem como desviar o olhar dos montes de lixo nas ruas da Grande Vitoria, há dias sem coleta, o sonho de todos era que o lixo fosse invisível e que essa montanha de sacolas desaparecesse, sumisse e fosse dissolvida. Mas como não tem como parar o consumo, alguém tem que cuidar da limpeza da cidade e retirar a sujeira de vez da frente dos nossos olhos. O que parece mais um desabafo é discurso recorrente entre os moradores da Grande Vitória.
Essa realidade que se passa em nossos dias de fato incomoda. Mas às vezes temos que recorrer à literatura para mostrar que a vida pode ser uma mera imitação da arte. E foi Italo Calvino, ao falar de uma ‘’cidade invisível’’ chamada Leônia, que trouxe uma provocação para refletir sobre nossos dias de excesso de lixo. Nela, os habitantes consumiam e descartavam com grande fugacidade e acabavam cercando-se de pilhas volumosas de lixo, inconscientes dos impactos e perigos envoltos nessa problemática.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, nos livros “Vidas desperdiçadas” e “Vida Líquida”, faz uma análise do descarte de lixo e rejeitos e cita Leônia. Os seus habitantes tinham paixão por “desfrutar coisas novas e diferentes”. De fato, a cada manhã eles “vestem roupas novas em folha, tiram latas fechadas do mais recente modelo de geladeira, ouvindo jingles recém-lançados na estação de rádio mais quente do momento. Mas a cada manhã as sobras da Leônia de ontem aguardam pelo caminhão de lixo”.
Um observador atento aos montes de lixo nas ruas dos bairros capixabas não iria se enganar se visse que a verdadeira paixão dos leonianos — poderia dizer dos capixabas? — não era o consumo em si, mas “o prazer de expelir, descartar, limpar-se de uma impureza recorrente”. Nessa cidade, diferente das nossas, os varredores e catadores de material de rua eram “recebidos como anjos”. De fato quem tem coragem de catar os rejeitos descartados, podres e com mau cheiro?
Diferentemente da cidade invisível de Calvino, nossos varredores, garis, coletores e motoristas dos caminhões não deveriam ser tratados como heróis ou pelo menos com mais respeito e valorização? Afinal não são eles que estão na linha de frente da indústria da remoção do lixo? Mas não, esses profissionais, que a cada dia nos ajudam a delimitar a fronteira clara “entre a limpeza e a sujeira, a normalidade e a patologia, a saúde e a doença, o desejável e o repulsivo, o aceito e o rejeitado e o dentro e o fora do universo humano”, são explorados e desvalorizados.
Pior ainda quando se fala dos catadores de materiais recicláveis, que em sua maioria é explorada e vive da informalidade. Ao contrário do que diz a Lei 12305/10, da Política Nacional dos Resíduos Sólidos – PNRS, em seu art. 18, a participação dos catadores deve ser priorizada pelas gestões locais. A mesma lei diz que é preciso envolver a população no processo de separar e acondicionar os resíduos na fonte geradora. Para se ter uma ideia de como estamos distantes de promover coleta seletiva em nossas cidades, de acordo com o plano municipal de coleta seletiva de Vitória, a mesma previsão de 2% de coleta seletiva para a cidade em 2018 foi estendida até 2025.
Além da falta clara de vontade política, para a pesquisadora Priscila Rosa Bandeira da Costa, na tese “O papel do catador de materiais recicláveis no circuito da coleta seletiva e da reciclagem na Região Metropolitana da Grande Vitória (ES)”, apresentada no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Ufes, outros desafios como o incentivo à implantação de indústrias coletoras no Espírito Santo, a falta educação ambiental, a adesão e participação da população, além, é claro, a necessidade de colocar o catador como agente protagonista da politica de reciclagem são obstáculos que precisam ser enfrentados.
Infelizmente, a questão do lixo transcende a ficção. Por isso, os novos prefeitos que vão assumir em janeiro de 2021 têm uma tarefa árdua de rever o modelo atual de coleta e propor novas saídas, mais ousadas, criativas e atraentes para que o lixo, ao invés de rejeito, se torne fontes de riquezas e rendas para os trabalhadores da área e nossas cidades. Exemplos e modelos de sucesso da gestão da indústria do lixo existem e podem ser copiados para o bem de todos os capixabas.

Paulo Brandão

É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

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