O abandono dos pobres. Se não for isso, como podemos explicar o pífio desempenho do candidato da máquina pública de Vitória na disputa eleitoral neste domingo? Claro, análises outras podem apontar vieses variados. Mas não tem como negar que a elite política que administra a prefeitura foi omissa e ausente em relação à execução de projetos para atender as famílias mais pobres da Capital capixaba.
Como é sabido, o poder público municipal, por meio de seu aparato estrutural democrático, durante anos se ajustou à promessa e à responsabilidade de proteger e de dar bem-estar coletivo aos cidadãos contra as intempéries, crises, pandemias e desgraça individual. Isso é bem evidente nas diversas secretarias e órgãos criados, como os que tratam da assistência social, moradia, defesa social, saúde, educação e outras.
No entanto, tais instituições com a finalidade de executar politicas públicas para o conjunto da sociedade, de modo especial, para os que mais precisam, se tornaram estruturas engessadas. Muitas recebem verbas até vultosas, mas estão sob controle de políticos e agentes especializados demais, para sentir e perceber a cidade real, composta por pessoas que sofrem os dramas de viver em Vitória.
Os seus planos são tão mirabolantes, que funcionam bem para atender determinado segmento da sociedade. Às vezes ficam só no papel, mas mesmo quando colocados em prática, não atendem às reais necessidades dos seus possíveis beneficiários. Se não fosse só isso, nos últimos anos a gestão atual implantou uma politica de austeridade, com diversos cortes nos serviços públicos.
O prefeito reduziu para menos de 25% o orçamento da habitação, sendo que Vitória 33% do território é urbanizado como assentamentos subnormais, conforme IBGE 2020. “Um terço de Vitória possui condições precárias de moradia, de acesso à terra urbanizada, à infraestrutura urbana. Esse número é muito preocupante, pois Vitória há quase 30 anos praticava política pública habitacional participativa, com resultados significativos”, diz a professora Clara Miranda, do departamento de Arquitetura da Ufes.
No entanto, nos últimos anos da gestão atual, nada foi feito para evitar o sofrimento do povo pobre de Vitória que precisa de uma casa para morar. “Hoje os recursos são utilizados em quantidade com aluguel social, em vez da prioridade na provisão de habitação e urbanização”, confirma a professora Clara. Essa política equivocada “estimula o aumento do valor dos aluguéis na periferia e cria uma clientela vulnerável”, continua.
É sabido que as pessoas das camadas de menor poder aquisitivo precisam usar os serviços públicos, são eles os mais afetados com cortes. Qualquer política de austeridade, com cortes no funcionalismo e nos serviços essenciais, afeta diretamente a vida dos mais pobres. Assim a confiança em quem está no poder cai. A política fria e distante da vida, construída por tecnocratas, semideuses do alto de seus palácios à base de café gourmet e ar condicionado, nesta eleição foi descartada.
O resultado da eleição de domingo, que escolheu o candidato do Republicamos e o do PT para a disputa em segundo turno, confirma a insatisfação dos eleitores com a gestão atual. E foram justamente os dois, de acordo com a pesquisa Ibope encomendada por A Gazeta, os preferidos entre eleitores mais pobres. Agora, não basta só apresentar propostas, é hora de saber quem tem condições reais de fazer um compromisso para implantar as políticas públicas que o povo de Vitória mais precisa.