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Infraestrutura

Fogo da Vila Rubim nutre-se da falta de investimento e fiscalização

É preciso ousadia, criatividade e gestão para deixar o histórico mercado popular de Vitória à altura do que merece o povo capixaba

Publicado em 01 de Outubro de 2019 às 10:49

Públicado em 

01 out 2019 às 10:49
Paulo Brandão

Colunista

Paulo Brandão

Imagens de drone revelam cenário de destruição na Vila Rubim Crédito: Divulgação | CBES
Pela mitologia grega, foi Prometeu que roubou o fogo dos deuses. Sua força e coragem trouxe à humanidade a semente da chama de luz e calor. Com apetite igual a dos mortais gananciosos, sempre faminto, o fogo precisava ser controlado. Uma vez alimentado, poderia devorar tudo.
Mas foram os arqueólogos, com suas pesquisas, que mostraram que, ao aprender a usar e controlar o fogo, o ser humano conseguiu se destacar. Sobreviveu às intempéries, se aqueceu, cozinhou para comer e manter o grupo. Aprendeu a se defender, reuniu forças e armas para atacar os inimigos. Dominou as outras espécies e conquistou territórios. Obteve poder e conhecimento.
Com a técnica advinda do uso do fogo, o ser humano mudou a sua história por completo. Aprendeu a controlar e desenvolver todas as formas de energias. Criou formas de transporte. Construiu vilas, cidades e metrópoles. Com o domínio do fogo, obteve riquezas e aprendeu que é possível viver com qualidade de vida e segurança.
Em terras capixabas, aprendemos a dominar o fogo e criamos formas de viver na cidade. Porém o fogo da Vila Rubim parece imortal. Acorda sempre faminto de seu sono profundo. Nutre-se da falta de investimento público e privado. Da falta de fiscalização e alvará do poder público. Da ausência de prioridade ao planejar os espaços da cidade. Enfim, do descaso dos gestores que poderiam fazer a diferença. Ele é alimentado, por isso sempre ressurge. Tornou-se uma “tragédia anunciada.”
Quem será que vive das chamas deste fogo faminto? Quem insiste em alimentar a sua imortalidade? Essas e outras perguntas ficam sem resposta quando a especulação imobiliária fala mais alto e domina o interesse público e privado. Contudo, a história e a memória capixaba não têm preço. Não podem ser abandonadas por aqueles que deveriam atuar para tornar nossos espaços mais acessíveis e humanizados.
O fogo promoveu o conhecimento, poder e investimento. Mas é necessária a coragem e a força de Prometeu para dominá-lo e não se queimar. É preciso ousadia, criatividade e capacidade de ouvir e tomar decisões, para fazer do mercado popular da Vila Rubim um lugar à altura do que merece o povo. Não dá mais para ver queimar, como há décadas, parte da cultura e história deste lugar tão caro ao nosso povo capixaba.

Paulo Brandão

É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

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