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Crônica

Um guia dos anos 70 para entrar no high society

"Se tiver carro esporte, dirija você mesmo, mas tenha o cuidado especial ao escolher os óculos. Seja esportivo. Sorria muito, mesmo no tempo das vacas magras, de quedas na Bolsa ou recesso bancário. Sorria sempre"

Publicado em 13 de Dezembro de 2022 às 00:10

Públicado em 

13 dez 2022 às 00:10
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Na peregrinação madrugada adentro à procura de leitura, encontro a edição número 4, de fevereiro de 73, da revista multidisciplinar “Espírito Santo Agora”. Exercia a função de redator-chefe. Claudio Bueno Rocha (CBR) a de editor-chefe, entre dezenas de outros muito bem qualificados na arte do jornalismo
A capa foi desenhada a lápis de cor pelo então Atilio Gomes, atual Nena B. Edgar dos Anjos, como sempre, encarava o empreendimento, contratava os melhores e pagava muito bem. Os temas editados eram de uma variedade jamais vista na Ilha Delícia ou no planeta. A impressão era feita no Rio de Janeiro e organizada por Vinicius Seixas, importado de O Globo.
Gostaria de listar os títulos das variadíssimas matérias da chamada Número Quatro se fosse possível. Textos interessantíssimos.
Dentro, todas as modalidades impressas nesse número levaram-me a um texto-brinquedo de Claudio, o CBR, sobre a arte e técnicas para principiantes serem admitidos na alta sociedade, que foi capa sob o título “Sociedade Suburbana”.
Revista
Revista Espírito Santo Agora Crédito: Arquivo pessoal
Resolveu brincar com a cidade que era sua e até hoje não sei o que pensaram, sentiram ou ressentiram seus amigos do grupo ao qual ele mesmo, já cidadão capixaba, também fazia parte ativa.
Transcrevo para a senhora e meus outros parcos, mas queridos leitores, ipsi literis a ilustração em forma de texto escrita pelo editor-chefe.
“Sociais”- Uma receita para ser do society? Fácil. “Se não tiver pedigree, tenha dinheiro; se não tiver dinheiro finja que tem. Gire em torno dos nomes. Um pouco de talento ajuda, muito talento atrapalha. Seja irônico sem ser cruel. Deva o suficiente para oferecer um bom uísque, ou uma boa ceia (não custa saber que vinho branco se bebe com peixe, e tinto com carne), mas não deva tanto a ponto de deixar os avalistas preocupados.
Telefonemas de gerentes de banco devem ser respondidos, somente depois da segunda chamada, e após o atendimento prévio pela secretária. Responda com secura mas sem rispidez. Mulher nunca deve atender o telefone antes das dez. Não é bem. O homem precisa usar as últimas calças ou camisas lançadas no mercado numa hora apropriada, no restaurante mais concorrido da cidade.
Converse sobre viagens. Você e sua mulher. Você e sua mulher devem ter feito uma viagem no máximo há um ano e meio (duas pessoas vão à Argentina passando do bom e do melhor, durante 25 dias, por cerca de 8 mil cruzeiros, o que dá uma prestação de 700 mensais durante o ano)
Em Vitória frequente o Iate, o Praia ou o Libanês. O Iate é o mais chic, mais tradicional e você pode aparecer bem. No Praia você pode fazer os melhores contatos. O Libanês é muito grande e cuidado para não se meter com um grupo de segundo time pensando estar na melhor faixa.
Seja amigo dos colunistas. Eles estão querendo aparecer tanto quanto você. Seja acessível sem ser impertinente. Fale vagamente de seus negócios, beba bem, mas não se embebede e tenha coragem de pagar um bom jantar no Cindes, de 500 cruzeiros. Com cartão de crédito naturalmente (tenha pelo menos três). O cheque é extremamente cafona.
Se tiver carro esporte, dirija você mesmo, mas tenha o cuidado especial ao escolher os óculos. Seja esportivo. Sorria muito, mesmo no tempo das vacas magras, de quedas na Bolsa ou recesso bancário. Sorria sempre”.
Então.
Essa “receita” é literalmente de total responsabilidade do cidadão carioca José Claudio Ferreira da Rocha, o CBR.
Pode contestar quem quiser, mas ele terá certa dificuldade em receber alguém ou algo pessoalmente.
Morreu do coração em julho de 1977.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, morre de saudades de CBR.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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