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Crônica

Antes do verbo, não havia nada

As palavras, historicamente, coladas ou descoladas umas nas outras, eram gritos e sussurros sem significados ou significantes, pelo menos até quando foram desvendadas, ou simbolizavam qualquer linha que viesse estruturar o pensamento

Publicado em 06 de Dezembro de 2022 às 00:15

Públicado em 

06 dez 2022 às 00:15
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

No pragmatismo da vida que dominou o pensamento e, portanto, a crença na fala, desde que a palavra foi adotada sob vários estilos em toda a Terra e escrita nos troncos das árvores e nas inscrições nas paredes das cavernas, não havia um alfabeto organizado em lugar nenhum. Não que se saiba.
As palavras, historicamente, coladas ou descoladas umas nas outras, eram gritos e sussurros sem significados ou significantes, pelo menos até quando foram desvendadas, ou simbolizavam qualquer linha que viesse estruturar o pensamento.
Que se saiba – e nisso meu cão Dorian Gray me apoia – apenas o francês Jacques Lacan trouxe esse amontoado de inteligência para uma certa lógica formal. O Real, o Significante e o Simbólico. Uma genialidade.
A civilização precisava de credo e sentido nas coisas. Como não havia jeito de tornar inteligente, ou seja, com um certo sentido as diversas modalidades históricas de rabiscos, criou-se no mundo três ingênuas fases da inteligência, que pelo menos podiam fundar a lógica.
Freud gostava da deusa Atena, nascida dos céus quando o crânio divino foi cindido por Hefesto.
Mulher com livro
Mulher com livro Crédito: Shutterstock
A psicanálise teria surgido de modo semelhante, irrompendo da cabeça desse “gênio da humanidade” e dessa figura central da ciência do século XIX. Nascera então por milagre literário, muito comum naqueles dias, a promessa de um novo mundo, jorrando em abundância e exagero, como se nada ou ninguém o houvesse precedido. Duas eras: antes e depois da psicanálise.
Seria “pessoa de ciência” e as escolas, portanto.
Freud teria determinado e possibilitado, então, o aprendizado inscrevendo o científico em um sistema.
Sem remontar ao mítico centauro Quiron, que nos aposentos de Epidauro prescrevia o sono para incitar seus pacientes a produzirem sonhos. Convém lembrar do grego, o sofista Antifonte de Corinto – século V a.C - que convidava seus concidadãos a contar-lhe seus sonhos e, em troca, lhes prometia curá-los de suas angústias e de seus pesares. Chamava a isso techne alupias, a técnica que suprimiria a dor.
A festa durou pouco, pra você ver, um reizinho sem grande importância mandou matá-lo. Engraçado.
Então.
A ciência vista através das lentes e estudos da loucura, a menina dos olhos de Sigmund Freud, a Histeria, anuncia-se das prerrogativas divinas como um vasto processo considerado pelo homem como doença incurável na Idade Média.
O estudo e o experimento com histórias tiraram Freud do pedestal. Tamanha destituição do divino já havia começado quando os físicos de Kleper e Isaac Newton expulsaram o próprio Deus do paraíso da explicação humanista.
Os geniosos da época criaram outros deuses e daí em diante tornaram a missa dominical e outras celebrações obrigatórias e com roteiro. Então, cada um escolhendo seu “uno” tirou Deus do trono e, logo, o “homem não seria mais reflexo do Pai”.
O negócio pegou de tal maneira que, hoje em dia, qualquer organização que tem uma única lei, chefe, cacique, um qualquer coisa, volta a exercer o poder no modelo de deuses malucos e nasce uma igreja.
O poder divino foi se aperfeiçoando, se modificando, até atingir o âmago do caos. Por exemplo, a roubalheira permitida no Orçamento Secreto. Por que não é impedido? Porque vira magia intocável, como os deuses inventados.
E outras milongas mais.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, assim como os eleitores de direita, de esquerda, de cima e debaixo, não ter nada a ver com isso.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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