Sei não, mas as guerras de antigamente eram mais inteligentes. Os romanos formaram as mais eficientes forças armadas da época, saíam pelo mundo a matar e morrer. Mal se aproximavam com as suas catapultas, táticas de ataque e defesa, e outras milongas mais, e os seus inimigos cediam, não sem antes matar os soldados atacantes.
Asterix, o gaulês, que o diga. Era muito sangue e ouro que rolava no pedaço. Além do mais, os romanos saíam de casa para lutar e deixavam sozinhas e desamparadas as mulheres, sob a prudente guarda dos eunucos. Dizem que foi assim que foram inventadas as variáveis sexuais.
Em um belo dia de luz resolveram evoluir e substituir as guerras por jogos: mais baratos, mais participativos e populares. Respeitável público, assim foi construído o Coliseu. Durante as porfias, surgiram os vendedores ambulantes para atuar nas arquibancadas, cuja renda ia para o bolso do imperador, costume que perpetua-se até hoje sob o nome de capitalismo selvagem.
Roma cobrava impostos do povaréu, com seus recolhedores, que eram muito bem treinados na arte do convencimento, geralmente a chicotadas, mas mantinham suas próprias vidas intactas. Quem se matava nas arenas eram os prisioneiros, chamados gladiadores. Cômodo, tremendo mau caráter, filho do imperador Marco Aurélio, matou o pai e ficou com o Coliseu pra ele.
Essa maneira de governar influenciou todo o mundo. Até Elizabeth Taylor foi ter com o imperador da vez, instante em que ela, em sinal de protesto e denúncia, deixou-se picar por uma serpente venenosa que funcionava.
E assim caminhou a humanidade. Durante muitos anos as grandes guerras eram controladas por Cecil B. DeMille, a partir de Hollywood.
De lá pra cá, aconteceram milhares de guerras, com milhões de mortes. Mas por ordem superior da mídia só contam a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. As outras não contam. Como sabemos, quem ganha a guerra é quem conta a história. E as primeiras coisas que morrem são a verdade e a ética.
Como era muito trabalhoso morrer de tiro e estilhaço, surgiu a nova modalidade de competir e, claro, tirar vantagem. Foi assim que a Rússia inventou o Sputnik, com uma cadela dentro, a Laika. Agora, a senhora aí me diga, pra quê? Dar uma volta na Terra, coisa que qualquer transatlântico faz.
Para competir, os americanos, só de raiva, foram à Lua, ou disseram que foram. Não interessa. A mesma coisa ocorre quando se controla os meios de comunicação. Daí inicia-se um circo ridículo, parte a parte, em uma disputa de picadeiro que não serviu e não serve para nada. A mídia direcionada à paz também não teve o mesmo efeito e popularidade que o Coliseu de Roma. Daí inventaram a bomba atômica, capaz de acabar com toda a lona do circo.
Agorinha mesmo, no momento em que lhes escrevo, realiza-se a solene derrocada do Coliseu. Retorna-se ao tempo em que um imperador, não tendo mais como demonstrar sua arte, passa a matar. E não tem conversa, mesmo porque não é fácil conversar em língua russa. No momento, toda a Terra estremece repleta de medo e dúvida.
A Ucrânia, a bola da vez, tem um presidente que na minha modesta opinião não tem a intenção de parar o jogo. Do outro lado da arena, Putin não pretende colaborar com nada, o que está claro para todo mundo. Quase diretamente, ameaçou usar seu grotesco material de trabalho, a nefasta bomba atômica, se fosse contrariado.
Não entendo nada de guerra, mas não bastaria o mínimo de bom senso - caso existisse - de ambos os lados para que esse inferno, que deixa todos nós em estado de pânico prévio, finalmente acabasse? Ainda não está claro quem ganhará e quem perderá com essa estupidez, mesmo que não haja vencedor como o tenebroso jogo de frescobol.
Volto a ler “Confessions” de Santo Agostinho.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, anda se escondendo embaixo da mesa.