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Mundo

Guerra na Ucrânia: entre a memória e a vida humana descartável

Os rastros deixados pelos traumas de guerra fogem à nossa compreensão, considerando que não alcançamos o que se passa nas mentes de pessoas após serem submetidas a experiências de matar ou morrer por interesses de terceiros

Publicado em 07 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

07 mar 2022 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra Verônica Bezerra
Rússia bombardeia centro de Kharkiv, e comboio ameaça capital da Ucrânia
Rússia bombardeia centro de Kharkiv, e comboio ameaça capital da Ucrânia Crédito: Associated Press | Estadão Conteúdo
O confronto sujeito a interesses entre dois atores ou mais, sendo organizado ou não, por meio de uso de armas com vistas a aniquilar o “inimigo” é um conceito simples de guerra. Na história da humanidade, a tríade de uma guerra sempre esteve pousada no território, poder e capital, mesmo que a supressão da vida humana de milhares de pessoas fosse uma consequência direta ou indireta.
Mesmo com informações desencontradas e controversas, uma estatística não está submetida ao crivo de dúvida: centenas de pessoas perderam suas vidas, outras tantas suas casas, outras mais suas histórias. Uma miríade de desesperados passou a empreender fuga para sobreviver aos horrores de uma guerra, que deixa suas marcas indeléveis para o resto da pouca vida que sobrou. Memórias dormentes de um tempo que não deveria mais existir.
Inobstante as justificativas ou razões que uma guerra possa trazer em narrativas falaciosas e interesseiras, o que passa ao largo da compreensão dessa escritora é o fato de vidas que são ceifadas, civis e militares, deixando crateras nas almas das famílias.
O exercício que tenho feito e a pergunta que gostaria de fazer para quem ordena um ataque é se ele colocaria um filho seu no primeiro pelotão. É diferente dar uma ordem para o filho de outrem seguir para o front de morte, mesmo que revestida do mais ufanista argumento.
Os rastros deixados pelos traumas de guerra fogem à nossa compreensão, considerando que não alcançamos o que se passa em suas mentes após serem submetidos a experiências de matar ou morrer por interesses de terceiros. Os traumas e desastres fazem parte da experiência humana, fazendo que o homem, enquanto espécie, se adapte a circunstâncias diversas. Contudo, os episódios gravados na memória no caso de uma guerra são diferentes. O início de uma guerra é deliberado. Existe uma decisão.
Judith Butler com seu pensamento transgressor, em “Quadros de guerra”, que traz ensaios como resultado de reflexões a partir da Guerra dos EUA contra o Iraque e as torturas praticadas em Guantánamo, apresenta-nos uma ampla interrogação sobre como o poder enquadra nosso olhar sobre os corpos, seus significados e valores. Sentencia de forma muito consciente que se destruímos o outro, estamos destruindo aquele de quem dependemos para sobreviver e, portanto, ameaçamos a nossa própria sobrevivência com nosso ato destrutivo.
Foi justamente para impedir a nossa própria destruição, após a Segunda Guerra Mundial, que, em 1945 foi criada a ONU e em 1948 proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, com objetivo claro de conter aqueles que tem a vã ilusão de que suas decisões não se voltam contra si e contra os seus. Mesmo que não tenham ido fisicamente para a guerra, a guerra um dia chega, mais cedo ou mais tarde, até aquele que faz dela o único meio de se relacionar com o outro.

Verônica Bezerra

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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