Eram risonhos e francos os comícios da cidade. Dezenas de partidos subiam em palanques iluminados, cercados de eleitores, cada um com suas cores, siglas e preferências eleitorais. A disputa já começava ali, quando a TV ou não havia começado ou estava engatinhando. Não me foge à memória, eu criança ainda, a disputa entre Getúlio Vargas e o Brigadeiro Eduardo Gomes. Até nas turminhas de garotos estava estabelecida a preferência.
As músicas nas rádios eram para serem decoradas. Meu pai era Getúlio, trabalhista. No rádio tocava: “Getúlio Vargas, o povo do Brasil te espera, te ama, te adora, e te venera”. O jingle do adversário lá em casa ninguém sabia, e muito menos cantarolava, na verdade nem sei se ele tinha musiquinha de campanha.
As crianças discutiam à sua maneira as vantagens e desvantagens dos candidatos. Papai dizia que quando Getúlio ganhou, fez muitas coisas - que nós defendíamos - com uma Carteira de Trabalho, com a Petrobras, e um montão de coisas que a gente havia memorizado na maturidade de nossos 12 anos de idade. As meninas, que eu me lembre, não se metiam nessas coisas. Não que eu soubesse. Coisa de menino e coisa de menina.
Lembro que o Gegê, codinome de Getúlio, era do PTB - Partido Trabalhista Brasileiro, que levava as cores do Flamengo. Talvez fosse coincidência adotar as cores do Clube de Regatas do Flamengo. Mas o forte do clube era mesmo o futebol. Gostava de ouvir o sotaque gaúcho do “Velho”, como era chamado por alguns.
Minha madrinha Noemi, que morava em casa colada à nossa, era Brigadeiro, nem por isso eu deixava de ganhar um baita presente no dia do meu aniversário, mesmo eu dizendo para ela minha influente preferência eleitoral. Lembro do dia em que papai chegou em casa tarde da noite, quando terminavam os comícios, repletos de músicas e serpentinas partidárias de papel de seda colorido preto e vermelho.
Bem me lembro o dia em que havia chovido e um respingo rubro caiu da gola do paletó do senhor Aderson, meu pai. Mamãe cismou que era batom, apesar das negativas. Ameaçou votar no Brigadeiro. Daí, foi conversa até o dia seguinte. Que eu me lembre, deu empate.
As ruas nos dias seguintes aos comícios amanheciam cheias de santinhos com nomes e fotos dos candidatos a prefeito, a vereador, a deputado, a senador, a governador, e outras boquinhas mais que não me lembro agora. As ruas tinham cheiro de democracia e a chuva, quando havia, molhava as cabeças.
Os militares eram aplaudidos no 7 de Setembro e nós outros sentados na calçada de canudo, canequinho e bandeirinha do Brasil impressa em papel e presas em hastes de bambu, as quais balançávamos cantando o Hino Nacional e as fardas do meu país. Haja democracia e respeito.
Devo denunciar que havia um vizinho que quando reunia a rapaziada para distribuir Chicabon dizia que “democracia era a arte de governar o zoológico a partir da jaula da hiena”. Nunca entendi e continuo sem entender, afinal íamos lá por causa do sorvete.
Naquele tempo dominava o país outro tipo de disputa. Vou lhes contar.
Uma bela baiana, chamada Martha Rocha, fora eleita Miss Brasil. A senhora não imagina a importância que isso tinha. Mobilizando todas as torcidas de todas as agremiações do país, ela fora à Califórnia defender para o nosso verde e amarelo o troféu de Miss Universo.
Deu xabu.
Por duas polegadas excedentes na cintura ela ficou em segundo e o país chorou, mas deu apoio cantando uma quadrinha.
“Por duas polegadas a mais, passaram a baiana pra trás. Por duas polegadas, e logo nos quadris. Tem dó, tem dó seu juiz”.
Bem, não havia urna eletrônica.
Pelo olhar arregalado, acho que o meu cão vira-lata, Dorian Gray, está com o povo.