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Crônica

O segredo do padre amado

O sacrossanto Benedito era muito antigo. Era costume naquela casa de Deus suspender as aulas toda vez que morria um sacerdote. Não sei se por acaso, mas seu apelido era ”Próximo Feriado”

Publicado em 03 de Maio de 2022 às 02:00

Públicado em 

03 mai 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

O latim seria elidido do ginásio naquele mesmo dia. Padre Benedito, nosso professor da disciplina em todos os sentidos, determinou um a um que fosse ditando as frases de “Diana”, pela qual mantinha uma fixação qualquer, não sei qual era.
Como eu não era nenhum especialista na matéria e suas declinações, fechei os olhos e mandei ver. O primeiro a sofrer: “Diana erat dea silvarum. Portabat settas et sagittas et introdutiae in silvis cotidiae”.
Não sei se passo para vocês, meus raros, mas queridos leitores, porém suponho que todos os três já sabem. O religioso fez uma cara de rara descrença. Teria ele adivinhado que eu só sabia traduzir aquela frase da narrativa? (Diana era a deusa da selva, pegava seu arco e flecha e se metia dentro da selva todos os dias).
Em sinal de penitência atribuída ao MEC ordenou que ficássemos na sala de aula por mais três horas. Teríamos que conversar em latim sem saber, só para sofrer. Eu ficava abrindo e fechando a boca como se estivesse no Sambão do Povo.
Modestamente, criamos um samba confuso, Dom Benedito quis saber a letra. Pedia para dizer em latim vulgar. Ele já não escutava direito, de modo que ficou assim: “Bobeatus est enrabatus sunt”. Acabou em letra de chorinho improvisado na hora.
O sacrossanto Benedito era muito antigo. Era costume naquela casa de Deus suspender as aulas toda vez que morria um sacerdote. Não sei se por acaso, mas seu apelido era ”Próximo Feriado”.
Não se pode negar que, além dos compromissos com Cristo, as leis que os apóstolos e outros concursados elaboravam pingadas de água benta, com as devidas sábias explicações, tinham a sua ração. Vide “sexo antes do casamento atrasa a cerimônia”.
Houve um ano aí em que o carnavalesco Joãosinho Trinta, da Escola de Samba Beija-Flor, repleto de emoção, mandou para a avenida Marquês de Sapucaí uma imensa estátua quase nua. Antes de chegar, a amorosa polícia da ditadura proibiu. Afinal, eram os repressores, ignorantes de cultura e piedade, principalmente na modalidade de tortura covarde e todos os males da força bruta. Joãosinho deu um jeito de cobrir a estátua, que saiu no Desfile das Campeãs.
Tô contando essa prosa para meus resistentes leitores saberem pelo lamaçal que passaram. E de certo modo ainda passam.O chafurdar ainda está aí. E nada o impede.
Justiça seja feita, fora as nossas brincadeiras, era pessoa de grande caráter o padre Benedito. Aprendi com ele a arte de me dedicar aos meus alunos.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, anda esperançoso.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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