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Psicanálise

A importância do brinquedo no desenvolvimento afetivo da pessoa

Dizem os sábios que durante o crescimento a pessoa elege determinado e definido objeto para ocupar imaginariamente o lugar da mãe insubstituível

Públicado em 

26 abr 2022 às 11:01
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Pipa
Outro dia, lembrava do tempo da pipa, do papagaio. Não era eu lá muito bom na confecção do artefato, mas já foi meu brinquedo predileto Crédito: Pixabay
Em uma tarde de verão, curtia os escritos e outros brinquedos de infância das minhas filhas Paula e Alice e alguns objetos usados capturados dos netos Bento, Gael e Valentim, recém-adquiridos. Tudo o que observei até hoje sobre o brincar me autoriza a suportar a ausência dos citados queridos. São objetos, que juntamente com outras identidades, me transmitem o cheiro e a voz de todos eles. Alguns imaginários ou desejados.
Escrevo essas mal traçadas com sentido no significado de brincar. Conversava sobre isso com uma amiga, lembrando a importância do brinquedo no desenvolvimento afetivo da pessoa. Dizem os sábios que durante o crescimento a pessoa elege determinado e definido objeto para ocupar imaginariamente o lugar da mãe insubstituível.
É muito comum que a pessoa, em determinada fase de crescimento, eleja um objeto que já está no mundo, como transição entre as percepções e as vivências do bebê e a vida adulta, uma espécie de mãe substituta, o Objeto Transicional. Assim, o instintivo toma forma e ganha nomes, tornando o nascido no caminhar da “independência”.
Podem ser perigosos os brinquedos dessa vida. Agorinha mesmo, dois presidentes que não conseguiram representar suas adversidades infantis estraçalham na vida real um ao outro, e nós outros de lambuja não podemos impedir a perversa brincadeira.
O noticiário está repleto de divulgação do mal, brinca-se pouco. Brincar de teclar pra vocês é uma das minhas brincadeiras prediletas. É uma das formas pela qual meu mundo interno desvenda a representação das coisas.
Outro dia, lembrava do tempo da pipa, do papagaio. Não era eu lá muito bom na confecção do artefato, mas já foi meu brinquedo predileto. Tenho filhas e netos e adoro poder brincar com eles. Nem sempre é fácil, dado às distâncias. Mas brinco ou imagino com os retratos de afeto, enlouqueço.
Quando fiz mestrado em Educação na Ufes, sob a tutela de Janete Carvalho, busquei entre outras coisas dirigir a ideia do aprender, centrado em Medicina, como uma busca de representações, de objetos transicionais, o Objeto Transicional.
Ficou para mim, entre outras descobertas, a re-invenção de um verso de Fernando Pessoa, cantado por Caetano Veloso : “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Foi uma felicidade quando entendi que o “preciso” aqui era de exatidão e não de necessidade. Não é exato mesmo. Tudo é novo e nada é real, vem e vai para uma realidade mutante.
A maioria das coisas que prometo fazer, não faço, mas essa eu vou fazer. Um clube pedagógico, não sei por que caminho, que proponha à criança desenhar o mundo a cada momento, certo ou errado. Precisa saber brincar. Saber das suas coisas à sua maneira, como propôs o gênio de Heinz Kohut e sua Internalização Transmutadora. É mais ou menos o seguinte: qualquer coisa para ser entendida como pensada, carece de ultrapassar uma espécie de membrana seletiva, que promova a "autentificação do material", e disso fazer seu “isso”, como diria Georg Groddeck. Muito complicado? Entenda do “seu” jeito então, brincando.
Ou não.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, egoísta, sempre acha uma razão para brincar.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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