Em uma tarde de verão, curtia os escritos e outros brinquedos de infância das minhas filhas Paula e Alice e alguns objetos usados capturados dos netos Bento, Gael e Valentim, recém-adquiridos. Tudo o que observei até hoje sobre o brincar me autoriza a suportar a ausência dos citados queridos. São objetos, que juntamente com outras identidades, me transmitem o cheiro e a voz de todos eles. Alguns imaginários ou desejados.
Escrevo essas mal traçadas com sentido no significado de brincar. Conversava sobre isso com uma amiga, lembrando a importância do brinquedo no desenvolvimento afetivo da pessoa. Dizem os sábios que durante o crescimento a pessoa elege determinado e definido objeto para ocupar imaginariamente o lugar da mãe insubstituível.
É muito comum que a pessoa, em determinada fase de crescimento, eleja um objeto que já está no mundo, como transição entre as percepções e as vivências do bebê e a vida adulta, uma espécie de mãe substituta, o Objeto Transicional. Assim, o instintivo toma forma e ganha nomes, tornando o nascido no caminhar da “independência”.
Podem ser perigosos os brinquedos dessa vida. Agorinha mesmo, dois presidentes que não conseguiram representar suas adversidades infantis estraçalham na vida real um ao outro, e nós outros de lambuja não podemos impedir a perversa brincadeira.
O noticiário está repleto de divulgação do mal, brinca-se pouco. Brincar de teclar pra vocês é uma das minhas brincadeiras prediletas. É uma das formas pela qual meu mundo interno desvenda a representação das coisas.
Outro dia, lembrava do tempo da pipa, do papagaio. Não era eu lá muito bom na confecção do artefato, mas já foi meu brinquedo predileto. Tenho filhas e netos e adoro poder brincar com eles. Nem sempre é fácil, dado às distâncias. Mas brinco ou imagino com os retratos de afeto, enlouqueço.
Quando fiz mestrado em Educação na Ufes, sob a tutela de Janete Carvalho, busquei entre outras coisas dirigir a ideia do aprender, centrado em Medicina, como uma busca de representações, de objetos transicionais, o Objeto Transicional.
Ficou para mim, entre outras descobertas, a re-invenção de um verso de Fernando Pessoa, cantado por Caetano Veloso : “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Foi uma felicidade quando entendi que o “preciso” aqui era de exatidão e não de necessidade. Não é exato mesmo. Tudo é novo e nada é real, vem e vai para uma realidade mutante.
A maioria das coisas que prometo fazer, não faço, mas essa eu vou fazer. Um clube pedagógico, não sei por que caminho, que proponha à criança desenhar o mundo a cada momento, certo ou errado. Precisa saber brincar. Saber das suas coisas à sua maneira, como propôs o gênio de Heinz Kohut e sua Internalização Transmutadora. É mais ou menos o seguinte: qualquer coisa para ser entendida como pensada, carece de ultrapassar uma espécie de membrana seletiva, que promova a "autentificação do material", e disso fazer seu “isso”, como diria Georg Groddeck. Muito complicado? Entenda do “seu” jeito então, brincando.
Ou não.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, egoísta, sempre acha uma razão para brincar.