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Crônica

Quem conta um conto sobre o mundo é quem vence as guerras

A Terra toma o mesmo formato em todas as suas dimensões bombardeadas. Todas as declarações dos líderes são, como sempre, a mais pura mentira e muito parecidas

Públicado em 

12 abr 2022 às 13:16
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Em vídeo, o presidente russo, Vladimir Putin, faz elogios a
O presidente russo, Vladimir Putin, em aparição em vídeo Crédito: Reuters/FolhapressReuters/Folhapress
A bomba atômica e similares destroem tudo o que se vê. Esse mecanismo aproveitou-se da guerra para esconder interesses ainda piores. Viram? Claro que não. A primeira bomba atômica vinha carregada no colo de um avião quadrimotor que se chamava “Enola Gay”. Uns dizem que era uma homenagem à mãe do piloto. Outros,  ao pai. Até hoje a autoria dessa homenagem é tema de discussão em ética e sociologia de boteco.
Mas essa não é a maior das confusões de conceitos que o nome trouxe a partir do fim da Segunda Guerra, quando Hiroshima e logo depois Nagasaki, no Japão, sumiram dos mapas. Alguns jogadores de dominó da Praça da Bandeira, no Rio, e da Costa Pereira concordam – coisa rara – que a guerra estava definida e ganha, se é que alguém ou algo ganha com a guerra.
O venerando Adolf Hitler tinha lá suas razões. Precisava recuperar terreno alemão perdido na Primeira Guerra. Putin é mais simplório, além de estúpido. Com um elegante exército – roupas confeccionadas por Hugo Boss - Hitler atacou e bombardeou o Leste, Oeste, Norte e Sul, e o que mais aparecesse no seu delírio de grandeza e onipotência. Sem motivo nenhum voltou-se contra o povo israelense, onde ele se encontrasse, e foi fazendo o que dava na telha. Notaram alguma semelhança com Putin?
A Terra toma o mesmo formato em todas as suas dimensões bombardeadas. Todas as declarações dos líderes são, como sempre, a mais pura mentira e muito parecidas. No caso do Hitler, queria de volta suas terras perdidas. Já Putin, nem me lembro mais. Esse movimento guerreiro parece uma trupe de palhaços assassinos vendo o circo pegar fogo. E o público em volta aplaudindo ou vaiando sem saber o por quê.
Aqui está, obrigada, desculpe
Mudando de conversa.
Na Amazônia, onde nasci, meninos eu vi . Ainda criança, cansei de passear de canoa com o caboclo Zé Maria, eram toras e toras das mais valiosas madeira rebocadas por grandes navios na direção dos portos de exportação. Os métodos de sangramento da terra eram os mesmos de hoje, a mesma delicadeza: derrubar florestas inteiras, inclusive bem perto de Manaus, enganchar as cordas e as correntes e com um singelo motor de popa descer rio abaixo grandes cargueiros esperavam pela floresta que geralmente iam com destino a Ilha da Madeira e Liverpool.
Processo semelhante era feito com a borracha manufaturada pelos seringueiros. Os índios ficavam esperando na margem do rio com o látex feito borracha e os compradores recolhendo a preço de banana. De lá pra cá, quanto mais muda, continua a mesma coisa, só que com muito mais intensidade. Florestas inteiras, equivalentes a cinco cidades de Manaus, desaparecem no ar. Os ladrões e autoridades são aplicados nas mentiras.
O método de aproximação era simples assim como é hoje. Queimavam a madeira menos nobre e assaltavam o resto do pedaço. Tudo isso com o falso controle estatal. Nada mudou sobre ou sob a Terra, exceto o relato da história. Quem conta um conto sobre o mundo é quem vence as guerras, e aumenta um ponto, e continua aumentando um ponto.
Adoro ler e plagiar Gabriel, não o anjo, mas o escritor. Escreveu um livreto “No vengo a discursar”, onde confessa que tem medo de fazer discursos, mais que andar de avião. Eu também, como ele. Sempre soube que tínhamos algo em comum.
Em um artigo pede perdão por só conseguir palestrar sentado. Diz ele: “Só consigo discursar sentado. A verdade é que se me levantar corro o risco de subitamente desmaiar de medo, desde que esteja em um avião, mesmo parado ou que sequer vá viajar nele”.
Assim como o motivo das guerras ou seus apelidos, não sei por quê.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, só late em deitado.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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