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Crônica

Apelido é sempre o verdadeiro nome de qualquer pessoa

A não ser em raros casos, como é óbvio, a maioria dos apelidos não tem um porquê. Brotam do inconsciente como uma nomeação divina

Públicado em 

29 mar 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Samba
O sambista Cartola, conhecido pelo apelido Crédito: Wikimedia Commons
Talvez nem sequer exista no mundo uma palavra que possa nomear uma pessoa e até animais em sua totalidade, nas suas infinitas maneiras de ser e estar. A começar pela autenticidade. O indefeso estreante é atingido no nascer por toda sorte de referências familiares.
Parece de propósito: as famílias vão montando, baseadas em sobrenomes de pais, tios, avós, ou pedaços de nomes deles cuja montagem forma algo semelhante a um código secreto. Entre jogadores de futebol a prática é quase obrigatória, por exemplo: “Meu nome é Orlanfilintomar, filho de seu Orlando e dona Filinta, e jogo na meia, na ponta direita, mas chuto com as duas geralmente ao mesmo tempo".
É por essas e outras que desenvolvemos na Rua Baldraco, 80, no Cachambi, o Tratado Geral do Apelido. As musas inspiradoras da obra eram dois irmãos. Um deles tinha explicação para tudo, desde que discordasse de todo mundo. E inspirou o apelido: "Porém”. Ninguém podia afirmar nada e lá vinha ele: “Porém, olhando por outro lado...” e demais variáveis. Dizem que acabou caolho. O outro era a cópia fiel, porém mais gordo, que o treinador da Seleção Brasileira de 58, Vicente Feola, muito parecido. Pronto, estava dado o apelido. Andavam sempre juntos, Porém e Parecido.
A elite intelectual capixaba é famosa pela arte de aplicar apelido. Frequentando a equipe de futebol de salão no Praia Tênis Clube, ficava preocupado com a estética do apelido com que iriam me batizar. Morria de medo de que escolhessem nomes de animais “carimbados”. Então, aproveitava os encontros das peladas e treinos para espalhar que havia nascido em Manaus, Amazonas, na esperança que me batizassem de Cobra, Pantera, Uirapuru.... essas modas. O resultado veio no dia em que o técnico do time dirigiu-se a mim: "Seringueiro, chuta a bola aí…"
Volto meu pensamento para um colega e amigo, que acabou psiquiatra. Morreu dia desses o Lúcio “Pinto Velho”. O Seringueiro também chora e muito.
A não ser em raros casos, como é óbvio, a maioria dos apelidos não tem um porquê. Brotam do inconsciente como uma nomeação divina. Quando o cognominado para o apelido era musculoso, ou autoridade no clube, não tinha apelido, pelo menos essa é a minha dedução. Quem teria coragem de apelidar Ricardo Drews? Era muito arriscado. Nem Marcos Murad, possuidor de diplomacia e autoridade histórica no clube. A pesquisa não chegava a tudo. Aribu nunca soube da origem do apelido e ele adorava.
A mim me parece que jogador de futebol só tem apelido. Além do mais, pesquisar a origem dos apelidos era uma tese de linguística. “Eu te batizo em nome do pai do filho do Espírito Santo com o nome de Edson. Não rima com a santificação da nomenclatura “Pelé”. E assim “Tostão”, “Didi”, “Fio”, e assim vai.
Outro dia conversando com “Porém”, todos na mesa de praia em Guarapari, cada um dando uma explicação para essa falseta de guerra, e o tema era o ridículo mafuá de russos e não russos que estamos vivendo. Lanço, então, meu apelido “up to date”: Tom e Jerry.
Você sabe escrever JK, digo, o sobrenome? Duvido. E olha que era o presidente do Brasil. Por acaso, conheces o mais completo sambista, hoje idolatrado como um santo cantante "nascido e morrido" na Mangueira, o Angenor? E Cartola, ouviu falar?
Dorian Gray, meu cão vira-lata, esconde seu nome verdadeiro: Rubinho.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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