Deus me concedeu a graça de conviver com Júlio, médico psicanalista que dedicou a vida a privilegiar as humanidades.
Escreveu muitas coisas e nos ensinou outras pessoalmente, nas supervisões e até nos livros de amigos de fino conhecimento que envereda pelos caminhos do Outro, digamos a famosa relação self objetal.
Sem contar os grupos de estudo, dos quais participei em sua casa na Urca ou no sítio de Teresópolis. Muitas vezes, o convidava a Vitória e ele vinha, um dia fez uma palestra sobre as fases do desenvolvimento humano, bem ali, no auditório do Hospital da Universidade Federal do Espírito Santo, conhecido carinhosamente como “Elefante Branco”. Brilhante.
Júlio morreu.
Dias antes de sua morte estive na clínica em que estava internado em Botafogo, Rio de Janeiro. Batia um sol bravo no quarto onde estava deitado, muito abatido. Não sabia o que fazer ou dizer, a não ser amá-lo e agradecer em silêncio.
Ele sabia.
— Paulo, acho melhor você ir.
— Ir embora?
— Sim.
Tomei um susto. Fiquei perplexo e triste.
Mas o seu semblante, o seu sentir, não queria que o visse daquele jeito, segredou-me uma amiga em comum. Não era rejeição, ao contrário.
Então.
Julio escreveu coisas únicas. Anos depois de sua morte, releio alguns livros - intelectual não lê, relê. Em “Identidade Médica” reúne textos de colegas estudiosos na arte de transitar dentro e fora da psicologia médica, como gostava de dizer.
Na minha opinião, todo o conteúdo de um trabalho analítico reside no paciente e suas circunstâncias.
Cito aqui o artigo de abertura do livro. É de Adolpho Hoirich, que com a sua inteligência e humor se fez conhecer abordando o sofrimento do ser humano médico.
A edição de Julio traz dez artigos de diversas tendências e autores. Ainda não deu tempo de ler os demais. Pena. Hoirich fez bonito. Qualquer dia eu falo dos outros.
Assim como Julio falava da relação médico paciente através dos tempos, no seu artigo, Hoirich vai ao tema: ...O estudo centrado no médico torna-se árduo… Leio seu insólito comentário sobre um certo código de Hamurabi (ao Google, persistentes leitores), onde critica, com unhas e dentes, a maneira severa como o profissional de medicina era punido antigamente. Se não atingisse os objetivos visados pelo paciente, podia ter suas mãos amputadas.
Por exemplo, na Idade Média, havendo dúvidas quanto à existência de “erro médico”, o doutor poderia ser submetido ainda à “Justiça Ordálica”. Se considerado apenas suspeito, era obrigado a caminhar descalço sobre brasa ou mergulhar as mãos em água fervente, ou as duas coisas. Como complemento, lá pelos anos 1700, vinha incluído o açoite ou a ingestão de veneno, como sobremesa.
A lei? Que lei. Bem comparando, é como o atual Orçamento Secreto nacional, onde os poderosos reinados, digamos, enfiam as mãos sujas no dinheiro público sem ter que dizer para quê, e muito menos prestar contas. E sem a menor cerimônia.
Minha cara senhora, entretanto, quando é o país que deve ao servidor funcionário médico, por exemplo, o dinheiro devido - a precatória - pode demorar anos a ser pago. Essa prática legislativa brasileira é a arte que deixa o larápio meter a mão no bolso do cidadão sem qualquer controle e transparência.
Dorian Gray, que se mete em tudo, foi pesquisar e anda espalhando para os seus semelhantes caninos que precatório é uma ordem judicial que exige o pagamento de uma dívida de um órgão público, como a União, os estados, os municípios ou os distritos. A dívida é cobrada quando o órgão público é condenado judicialmente.
A matilha morre de rir.