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Crônica

Paixão, morte e samba de Santo Agostinho

Vivia cantando as músicas de Nelson Gonçalves, principalmente “A Volta do Boêmio”, e encontrando com Lupicínio Rodrigues, que também não saía da zona. Bebia feito um condenado

Publicado em 03 de Setembro de 2024 às 03:30

Públicado em 

03 set 2024 às 03:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Certa vez, um venerável articulista convidou-me para dar aulas on-line sobre técnica de fazer crônicas e doces artigos. Recusei cheio de constrangimento. Tomara que ele não me ache metido à besta. É que eu não possuo técnica para quase nada. Quase tudo que sai de mim sai livremente do bandido coração. O cérebro não entra nisso.
Conto casos e faço meus remendos, costuras e bordados no texto. Santo Agostinho, meu santo de fé que não me deixa mentir sozinho, sabe que escrevo algumas doces cascatas, inclusive espalhando o que sei do mundo das almas. Tomara que haja quem goste.
Ele, na era pré-santificação, era um capeta. Por exemplo, se morasse no Rio, não teria arredado as sandálias da Lapa boêmia, mesmo, e muito principalmente, antes de ela existir. Coisas do truque milagroso, próprio de santificados. Rezava muito para não cair nas demais tentações.
Foi então escolhido pelo criador – “acharás os santos entre os mais pecadores”, diz a Bíblia – para ser santificado. Ao contrário das marmeladas do alto da nossa saltitante república o processo obedeceu a lei e logo o santo estava no seminário maior. Mais duas mágicas e já poderia benzer e reunir os de fé.
Milagre aqui, milagre ali, todo santo dia, acabou entediado e saudoso. Queria cumprir o mandato, mas sentia falta da boa vida nada santa. As tentações eram muito fortes, mesmo para um santo.
Então, como vai ser? Precisava arranjar uma saída.
Era muito sofrimento e culpa.
Vivia cantando as músicas de Nelson Gonçalves, principalmente “A Volta do Boêmio”, e encontrando com Lupicínio Rodrigues, que também não saía da zona. Bebia feito um condenado.
Em parceria com Candeia, escrevera a letra de inúmeros sambas de enredos. Com Dona Zica fez mais de um partido alto com participação de Paulinho da Viola e Chico Lessa. Com Billy Blanco, escreveu e plantou as principais notas de uma melancólica canção criticando a maldade. O santo passou a ser também compositor de sucesso. Afinal, um samba de breque é uma santa oração.
Mas a vontade do santo pela boemia era tanta, assim como a fé, de modo que ele claudicava cheio de tentações. Para resistir, precisava da benção de Jesus. Não estava conseguindo pelas vias usadas.
Agostinho precisava decidir entre a vida de santo ou de sambista.
Para redimir a dúvida, o quase santo pediu uma entrevista com o próprio Jesus Cristo. Na verdade, queria um milagre, pois sua fé estava entre o céu, para o onde fora chamado, e a doce e piedosa malandragem das canções do carnaval. Jogo empatado.
Teologia
Santo Agostinho em pintura de Philippe de Champaigne (1602–1674) Crédito: Philippe de Champaigne/Wikimedia Commons
Então.
Jesus no altar ouviu a angústia de Agostinho e ordenou que o futuro santo se ajoelhasse imediatamente.
Quando já ia anunciar a entrada do quase santo no time principal, Agostinho, em prantos, implora cheio de paixão:
- Senhor, pelo amor do Pai, me conceda só mais três meses de boemia!
(Fecha e abre o pano de boca do teatro duas vezes).
Dorian Gray, meu cão vira-lata, anda pesquisando o grau de bandidagem do Orçamento Secreto de Brasília e pede auxílio dos céus, mas acha que nem o Pai resolve.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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