Em priscas eras, da minha infância, fui discípulo de tia Cecy de Brito Inglez, ex-professora e exímia jogadora de xadrez, inventora de uma jogada de três mexidas, batizada de “Te peguei FDP”. Ela também batia um bolão no pôquer, e creiam-me no pingue-pongue, que virou tênis de mesa.
Bela e solteira por convicção, era contra o casamento e explicava suas convicções: sexo obrigatório nunca. Vai saber…
Eu, quando não estava aprendendo a jogar xadrez com ela, brincava por todos os esconderijos luxuosos do Teatro Amazonas, inaugurado em 1896 - em pleno ciclo da borracha.
Também ciceroneava turistas cantando as glórias históricas desse que é o maior e mais luxuoso teatro do Brasil. Aliás, modéstia às favas, até hoje.
Não sei se já falei para vocês do tio Jorge Bonates, que também já foi nome de teatro público em Manaus.
Aos 12 anos, eu tinha certeza que o teatro era dele. Ele fazia de tudo no principal marco histórico do Amazonas. Peça por peça do monumento histórico veio de navio, direto da Europa e foi montado na capital amazonense.
O tio Jorge era o irmão mais velho da tribo Brito-Inglez, de um total de 12 filhos. Minha avó Alice casou com vovô Bonates. Um dos irmãos vive em Manaus, tio Antônio.
Palmas e bis ao teatro.
Peças e mais peças teatrais, nacionais, regionais e internacionais, enchiam o palco maravilhoso do até hoje inimitável monumento à arte. Tio Jorge tocava o teatro praticamente sozinho. De zelador a diretor de patrimônio. Sabia tudo sobre a arte que se espraiava nos quadros, nos tetos, nos vasos, em tudo. E ensinava todos os detalhes para mim. O Jorge do meu nome, Paulo Jorge, é uma homenagem de minha mãe, Mariucha, a ele.
Mas como é que uma criança de 12 anos assistia todos os espetáculos noturnos, já que era proibida a entrada de menores?
Já lhes confesso, respeitável público das terças quinzenais.
Vamos lá.
Entrando pela porta de serviço, onde ficava a sala do Seu Jorge, era só subir as imensas escadas e passar para a ala principal, onde estavam os luxuosos camarins. Eu ficava onde desse para assistir o espetáculo. A altura do teatro, até a cúpula, equivale pelos meus cálculos a um edifício de 20 andares. Simples, não é? Vai tentar?
Quando aparecia um grupo de turistas, mostrava e explicava tudo para eles. Às vezes, as gorjetas valiam a pena, às vezes nem tanto.
Havia, e ainda há, um salão, o Salão Nobre, destinado aos objetos de arte vindos da Europa. Lembro especialmente de um quadro que tomava quase totalmente uma das paredes decoradas que retratava Peri salvando Cecy do incêndio (que não era minha tia).
Les Artistes
Entrando por trilhas secretas ia até as frisas do terceiro andar. Na verdade, camarotes de terceira. Bem me lembro da noite em que Procópio Ferreira, ainda com o pano de boca abaixado, exibiu uma performance:
Entrou na boca de cena, encarando a plateia, arrastando por uma cordinha várias notas de cem.
E voltando-se para o público, explicou:
— Passei a vida atrás delas, é hora de elas virem atrás de mim.
Gargalhada geral, e eu atrás de uma cortina, distraído, batendo palmas...
Fui flagrado, mas o funcionário da vigilância, amigo do tio, fingiu que não me viu. Assim eu me nomeei membro da claque para todos os espetáculos noturnos proibidos.
Tinha especial predileção pelos shows de dança ou balé de lindas — e quase nuas — mulheres de todo o mundo, além das candidatas a miss.
Eu estava lá quando Terezinha Morango ganhou o concurso Miss Amazonas. Logo em seguida ganharia o de Miss Brasil. Era 1957.
Aos domingos, havia espetáculos para crianças: “Vovô Preto e Vovô Branco”, uma espécie de Chacrinha das florestas.
Na minha família manauara havia muitos atores e atrizes regionais. Tinha um primo que era palhaço, cheio de graça, que também tinha seu público entre as crianças e se apresentava. Emprestou seu nome, em Manaus, a um cineteatro, Aldemar Bonates.
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Devo a essas aventuras uma atração irresistível pela arte teatral. Eu mesmo, quando preciso, sou palhaço. Pelo menos é o que dizem meus melhores amigos.
Em Vitória, tive o prazer de frequentar o belíssimo Teatro Carlos Gomes, especialmente na gestão de Marien Calixte, quando a cidade conheceu grandes espetáculos.
Mesmo adotado pelo Espírito Santo, não deixo de lembrar e reviver as águas e florestas do Amazonas
Dorian Gray, meu cão vira-lata, aplaudiu de pé essa confissão.