Minha doce e sábia senhora Rosenthal: já não se resolve mais nada com xícaras de chá mate e torradas douradas de manteiga láctea, que impulsionavam nossas conversas e discordâncias no diálogo sobre a contradição entre o bem e o mal, o rochedo e o mar. Era o tema do lanche que tomávamos todas as tardes de quinta-feira. Mas eu, aos 12 anos, continuava olhando para ela e os biscoitos.
Não que tenha me esquecido dos biscoitos Aymoré, que me presenteava em agosto, acondicionados em papel de seda em latas finas, decoradas com figuras impressas que pareciam ter sido desenhadas à mão. Tudo se passava no Café Lammas, que ainda não tinha ido para a Rua Paysandu.
Segundo a senhora Rosenthal, o Café Lammas iniciou a revolução operária na zona sul do Rio. Antônio, o português, dava de graça e com grado uma cota do patrimônio da instituição que de café só tinha o nome, pois se quisesse, o usuário chegava mais para trás, na parte alta, onde estavam as mesas e seus imensos cardápios de bordas douradas e contendo infinitas opções, que nos deixava paralisados em dúvida prolongada sobre o que escolher para o almoço ou jantar.
Eu não tinha esse problema, pois havia um compromisso entre mim e um cabrito pequeno e mateiro que me serviam com hortelã e um arroz que continha todos os temperos e ervas ao mesmo tempo, afinados como um violino spalla.
Ainda não havia sido inventada a chatice e seu chato protetor, de modo que o silêncio, uma modalidade de calma para as refeições, nos permitia ouvir por sussurros até as conversas das pessoas ao redor do Largo do Machado, através das portas de entrada.
Com toda a delicadeza do mundo, às vezes pedia a um garçom que comprasse “O Sol” nas bancas de revista. Caetano cantou o “Sol” nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça...
Não que eu a acompanhasse por interesse. Mas ela sempre contribuía com algum para a causa da pipa no ar. Na volta já comprava o material que servia de base para a brincadeira seríssima de rua, assim que me despedisse da senhora, aliás minha madrinha, que morava logo ali na Rua das Laranjeiras, como quem vai para o Corcovado.
Então.
Os trilhos que conduziam os bondes pelas paragens da região, seguindo pela Rua das Laranjeiras, também faziam parte do lúdico. Manjam? Pipa? Papagaio? Arraia? Aproveitava para comprar no Menelau uma pipa com rabiola grande, de papel de seda, e os motivos mais lindos do mundo.
Os trilhos – lembram que falei dos trilhos – tinham uma função secreta e ilegal: participar da confecção do cerol. Um pouco de cola aquecida e vidro esmigalhado ao pó. Tudo em uma lata de manteiga sem manteiga. Como transformar uma garrafa de refrigerante e outros vidros domésticos em pó? Quanto mais fino o vidro melhor.
Aí, entra o bonde, que às vezes puxava um reboque, na produção industrial da arma letal. Tudo misturado, íamos de lata carregada de vidro a triturar. Agora, era só arranjar uma encruzilhada nos trilhos para distribuir melhor o delicado conteúdo.
À noitinha, no horário planejado - era necessário variar o momento da ação para evitar flagrantes - armávamos o cerol, o pó com cola quente em linha zero esticada de poste a poste e finamente retocada. Escondíamo-nos atrás das árvores, precisava ver o escândalo que aquele bonde fazia. Ninguém dá valor à arte do trabalhador mirim. Chamavam a polícia e o escambau. Mas sempre sobrava material para completar a operação.
Tudo pronto, e dependendo do “peitoral bem feito”, era partir para a missão: destruir ou fazer prisioneiras as pipas dos outros. A cereja do bolo eram giletes adaptadas à rabiola, que tinham a honrosa missão de cortar a linha do outro.
Agora, pipa no ar, rabiola, e o grito de guerra:
“O Famão está no ar, pra cortar e aparar”.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, derrubava a lata de cola.