Estávamos Paula, Eliana Vicentini, Bento e eu no Restaurante e Spaghetti e Cia, depois de uma jornada de futebol do meu neto, que desempenhou com grande categoria, sangue do meu sangue.
Então.
Comemorando 50 anos de glória na medicina, um grupo de colegas médicos, chegou e me abraçou, simbolicamente, em conjunto. Adorei. Olho para a mesa onde estavam suas esposas muito jovens e não me contive:
- Vocês trouxeram as filhas? (fazendo graça).
Daí em diante, retornaram as lembranças, muitas lembranças, que é a realidade intocável, do tempo de acadêmicos, de estudar patologia. Morava em um edifício, na Beira Mar, chamado Amazonas, estado onde nasci. Dois andares acima, instalara-se a Real República Federativa de Mato Grosso. Incorporei-me a Totó, Guto, Tampinha, Wagner e outras figuras da juventude, sempre subia para estudar lá, quase todos os dias. Além de arranhar violão. Até aí, morreu Neves.
A título de notório investimento, vendia os livros do ano, para comprar os do próximo. Pelo menos era essa a história que contava ao meu querido pai Aderson, mas pelo menos a metade do alegado financiamento literário ia morrer nos cofres do bar Miramar, logo ali na calçada da Praia do Canto.
Em uma operação de compra e venda de ativos, no caso livros, um de “Patologia”, fininho, sem querer foi incorporado à minha pilha a ser negociada. E foi. Na pressa e descuido dos negócios, adicionei displicentemente o livro de um colega morador da dita república. Sacaram, queridos leitores?
Nesse tempo não contava provavelmente com a ajuda por devoção de Santo Agostinho, meu santificado cúmplice. Então. E sabem para quem fui calhar de vender o bendito livro? Justo para a namorada de um dos membros da já citada república (que, aliás, não está citado nominalmente neste texto).
Pois bem.
O tal republicano, não citado, entrou enlouquecido no recinto com tanto ódio e heroísmo que meu santo teve que intervir. Acho que foi Totó quem restituiu na hora o valor do livro, fininho e barato. Mas não importa. O ofendido me desafiou para uma luta de esgrimas dizendo que um de nós dois não poderia entrar mais naquele território sagrado. No final, o valentão é quem foi bloqueado. Santo Agostinho, tenho certeza também me salvou, cobrindo minha desatenta vergonha.
Deus existe, pra ajudar os santos.
Muitos anos depois, trabalhava em uma direção técnica na Fundação Hospitalar, quando aparece o histórico justiceiro acusador à cata de uma vaga no interior do Estado. O presidente, meu eterno amado Alcides Silva, encaminhou justo para mim o processo de admissão requerido pelo apressado acusador naquela tarde dolorosa na “república”. Podeira não assinar, e pronto.
Santo Agostinho, incorporado em Cidinho Silva, mandou assinar.
Assinei.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, comentou: “Pensar é dizer não”.