Houve um momento na história do Brasil em que a medicina pública, em especial a saúde mental, decidiu “reverter a tendência hospitalocêntrica”, dentro do Programa de Saúde da Família, no início dos anos 90.
Eu estava aí nesse momento, em 1993, em Brasília, representando o Espírito Santo, por indicação do então secretário da Saúde Luiz Buaiz, para compor um grupo de alto nível de estudos voltados para criar estratégias centradas em diminuir o abandono em que se encontrava a população brasileira em matéria de assistência à saúde.
O que ocorreu nos aposentos do Ministério da Saúde, em Brasília, foi resumido em um livro que inclui as metas e os trabalhadores em saúde do país inteiro, chamado “A Cor-Agem do PSF”, por Maria de Fátima de Sousa.
Como se sabe, as cúpulas nacionais tiveram e ainda têm muita dificuldade em proteger a razão do país, seu povo, em todas as áreas. Na saúde pública, em especial para mim, na saúde mental, é apavorante. A população pobre que pelo voto deveria mandar e desmandar é ignorada. O brasileiro sequer compreende o palavreado sofisticado e empolado das autoridades. Votam sem consciência. Isso é uma imposição sistemática.
A ideia do PSF, por exemplo, era expandir a assistência e instruir a população médica, ou não, sobre as defesas possíveis enquanto o profissional de saúde não vem. E ampliar cada vez mais a abrangência dos conhecimentos de saúde multiplicando agentes entre a população leiga, nos colégios, nos bairros, nas ruas, nas famílias.
Os serviços que lidam com saúde curativa e, muito raramente preventiva, são notoriamente insuficientes. As pessoas morrem esperando atendimento de meses em casos de urgência e emergência. O assunto é tabu ou camuflado em todas as instâncias.
A atenção secundária e terciária é entregue a planos de saúde particulares de alto custo para a grande maioria da população, em grande parte ligada, de um jeito ou de outro, a médicos e nem sempre à medicina. O indivíduo não sabe como sobreviver, pois a experiência da média da população é com a morte. Muitas vezes morre-se sem saber literalmente como.
A ideia do PSF, nos anos 90, era colocar o indivíduo adoecido no processo de aprendizado mínimo sobre sua condição de trabalho e as demais. O apoio do Estado estaria centrado em equipes multidisciplinares que visitariam as famílias doentes para incluí-las no processo de atenção primária em saúde.
O médico de família cuida das pessoas em todas as fases da vida, estabelecendo vínculos de confiança, responsabilizando-se pela promoção da saúde, prevenção de doenças e pelo tratamento. Não perde de vista o paciente, mesmo quando é necessário uma abordagem mais especializada. Deveria ser cobrado em todas as instâncias públicas formação primária em saúde.
Não poderia faltar a citação de um provérbio chinês: “Um médico de família experiente trata a doença antes que apareça um incompetente com pressa e sem tempo”.
Em alguns países, como os Estados Unidos, Canadá e Nepal, os médicos de família participam inclusive da atenção hospitalar. Os programas pontuais executados no Brasil, aqui e ali, não servem para quase nada como constatamos diariamente. E o salário não ajustado dos médicos, que se arriscam à contaminação em cada contato com o paciente, ninguém fala nisso. Inclusive representações da classe médica.
Respeitável público, o médico deve ser bom. Bom de bondade.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, me considera displicente.