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Crônica

O dia em que driblei Garrincha no Engenheiro Araripe

Fiquei três dias impactado, só lembrando daquele minuto e meio de glória que me vale, até hoje, uma eternidade

Públicado em 

14 nov 2023 às 00:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Não me lembro a data, mas já faz tempo, jornalistas cariocas armaram um time de futebol mambembe e saíram percorrendo o Brasil enfrentando os colegas de quase todos os Estados, cobrando ingresso. Mas espera aí. O que faria alguém sair de casa para assistir a legítimos pernas de pau, em uma noite de sábado, baterem uma pelada?
Calma, muita calma nessa hora. Acontece, que o time do Rio exibia, para motivar a torcida, a presença de nada mais, nada menos, do que Mané Garrincha, em seus estertores físicos e futebolísticos, que andava pela borda do gramado do Estádio Engenheiro Araripe com muita dificuldade. Seria trágico, se não fosse maravilhoso.
Alguém tinha de atrair o público. Podem crer, atraiu. E me convocaram, acreditem, para jogar contra o Garrincha, como se isso fosse possível. Implorei para obter uma torcida particular: as acadêmicas Eliana Vicentini e Emília Silva. Notei que não olharam nem uma vez para o gramado.
Eu era jornalista do Diário, o maior jornal da Rua Sete de Setembro, em Vitória. Aliás, no futebol apertava as primas e bordões com uma certa elegância. Assim, como o querido Luiz Carlos Maranhão que fez um gol de “peixinho” que, aliás, era a arte de cabecear deitado.
O técnico capixaba, o nosso, era nada mais, nada menos, que o consagrado Conde Bulau, uma folclórica entidade capixaba, cuja atividade resumia-se em desenhar, sob o aplauso e apoio de todos, nas portas dos banheiros públicos de todo o Espírito Santo, escrevendo a bucólica frase: “Bulau mijou aqui”.
A insólita partida começou. Bola corre, jogadores não, muito menos o Garrincha. Para o azar da torcida. Consegui me destacar: designado por Bulau, perdi um pênalti.
Ficamos rodando às tontas, procurando dar sentido e amor ao Mané. Foi quando chegou o grande momento, a vez da minha glória.
Procurava ficar bem colocado, só admirando o que restava do mito. Afinal, o amor não acabara, como jamais acabou.
Daí deu-se a melódia.
Corre pra lá, corre pra cá, todos nós jogando com o coração descuidado e apaixonado a quem, na minha opinião, era e é o maior jogador de futebol do mundo.
Trecho do filme 'Garrincha, Alegria do Povo'
Trecho do filme 'Garrincha, Alegria do Povo' Crédito: Reprodução
De repente, não mais que de repente, fico cara a cara com o namorado da Elza Soares e do Brasil.
Meu ídolo estava um caco. Suava muito e mal podia andar. Não sabia o que fazer. Ele sempre sabia:
"Mano, tô passando, tá?", disse Garrincha.
"Tá", respondi.
E passou.
Depois não interessa, eu estava realizado, enfrentei minha paixão, e amorosamente perdi.
Garrincha ainda fez umas poucas firulas e foi ovacionado pelas arquibancadas do estádio de Jardim América. Quanto a mim, fiquei três dias impactado, só lembrando daquele minuto e meio de glória, que me vale, até hoje, uma eternidade.
Aliás, sempre achei Garrincha melhor que Pelé. E segundo Elza Soares, a Xuxa também acharia.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, nas madrugadas late de saudade do Mané.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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