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Crônica

Era uma vez um lobo mau

A vida é pouca, mas com tempo suficiente para muita boa música no ar de Carlinhos Lyra, que tinha o poder de integrar-se a todas as pautas

Publicado em 19 de Dezembro de 2023 às 01:20

Públicado em 

19 dez 2023 às 01:20
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Carlos Lyra
Carlos Lyra Crédito: Divulgação
Curtia, eu, a costumeira madrugada quando deu na TV a morte do músico Carlinhos Lyra  aos 90 anos. Sempre tive por ele apaixonada inveja, Senti muito, muitíssimo.
Recordasse o que recordasse, apareciam uma letra e uma música incomparáveis. Dos anos 60 até a eternidade. O pensamento me levou aos seus parceiros, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e, inclusive, muito principalmente, o capixaba Roberto Menescal, só cobras criadas.
Vou à varanda e ouço o fantasma do “Lobo Bobo”: “Era uma vez um lobo mau que resolveu jantar alguém. Estava sem vintém”. Em seguida, chega “Minha Namorada”, a senhora se lembra?
Passei a assoviar as incontáveis canções dele, que além de tudo era o artista mais bem-humorado daquele pedaço de bossa nova, gênero compartilhado, daí em diante, pelos melhores músicos do Brasil e outros. A vida é pouca, mas com tempo suficiente para muita boa música no ar de Carlinhos Lyra, que tinha o poder de integrar-se a todas as pautas.
Alguns poucos ousavam reduzir o fino dessa nova bossa à música de bacana, localizada no apartamento de Nara Leão. Nada mais idiota. O irretocável Tom Jobim, um de seus parceiros, que sempre foi unanimidade nacional, o admirava muito, por exemplo.
Mas sempre havia os críticos de tudo, assim como as várias modalidades de censura. Sem sentido, como todas elas, não perdiam a oportunidade de falar mal .
Como diziam os poetas liberais, a inveja é uma merda.
Com todo o esforço, eu comprava todos os discos que podia de Carlinhos Lyra lançados e infernizava, no bom sentido, a vitrola lá de casa no maravilhoso abraço agulha e disco long play.
Carlinhos Lyra contou em uma entrevista que encontrava-se com todos os músicos que podia para conhecer suas criações, para novas parcerias, quando era o caso.
Participava do movimento contra a ditadura musicando, inclusive com humor: “O Brasil é uma terra de amores alcatifada de flores, onde a brisa fala de amores. Correi para as bandas do sul debaixo do céu de anil, e encontrareis um gigante adormecido, Santa Cruz, hoje Brasil. Mas um dia o gigante despertou e dele um anão se levantou: era um país subdesenvolvido, subdesenvolvido, e por aí vai. Os meninos da Juventude Estudantil Católica (JEC) cantavam isso muito bem. Os da União Nacional dos Estudantes (UNE) também.
A vida é pouca. Lá se vai mais um.
Espero que tenha morrido de rir.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, só quer latir em dó sustenido.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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