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Economia

Acordo Mercosul e União Europeia: como o ES pode surfar essa onda?

Com uma gestão pública efetiva, sinergia com os setores produtivos, foco na sustentabilidade e investimentos estratégicos, o ES está bem posicionado para maximizar os benefícios desse acordo, gerando emprego, renda e desenvolvimento de longo prazo

Publicado em 10 de Dezembro de 2024 às 23:00

Públicado em 

10 dez 2024 às 23:00
Pablo Lira

Colunista

Pablo Lira

Em 1999, eu estava no ensino médio em Guarapari, quando ouvi do saudoso amigo Pedro Lucci, um dos melhores professores de Geografia que já conheci, sobre um possível acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE).
Depois de 25 anos, o acordo está próximo de ser concretizado. Foi anunciado oficialmente na reunião dos líderes desses dois blocos que aconteceu na última semana na cúpula do Mercosul em Montevidéu, Uruguai. Nessa ocasião, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assinalou que o acordo é uma vitória para a Europa e traz benefícios mútuos para consumidores e empresas dos dois blocos geoeconômicos que juntos alcançam ganho de escala e somam mais de 700 milhões de pessoas e respondem por aproximadamente 20% do Produto Interno Bruto (PIB) global.
Para efeito de comparação os Estados Unidos e a China representam, respectivamente, cerca de 26% e 13% da economia mundial, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).
O acordo de livre comércio apresenta como propósito reduzir ou zerar tarifas de importação entre o Mercosul e UE. Além disso, estão previstos tratados de cooperação política, articulação ambiental, alinhamento de normas sanitárias e fitossanitárias, proteção de direitos de propriedade intelectual e ampliação e maior segurança para compras governamentais.
Para o Brasil, maior economia do Mercosul, o pacto pode intensificar as exportações de produtos agrícolas e minerais, segmentos em que o país tem reconhecida competitividade. Os produtores de soja, carnes, açúcar, café e celulose têm expectativas de ampliação de mercado, enquanto setores como tecnologia e serviços poderão se beneficiar da maior integração com países europeus, líderes em inovação.
Por meio de um modelo de Equilíbrio Geral Computável (EGC), um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) avaliou os desdobramentos do acordo e constatou um impacto positivo de R$ 37 bilhões na economia do Brasil até 2044. O pacto pode proporcionar um aumento de 0,34% no PIB do país, um crescimento real de 0,42% na renda dos brasileiros e uma elevação de R$ 13,6 bilhões em investimentos.
Exportação de rochas naturais se destaca como um mercado importante para a economia capixaba
Exportação de rochas naturais se destaca como um mercado importante para a economia capixaba Crédito: Centrorochas/Divulgação
Na escala estadual, o Espírito Santo apresenta atributos estratégicos que o colocam como um dos potenciais beneficiários do acordo. O ES possui uma das mais importantes infraestruturas portuárias do Brasil, com destaque para o Porto de Vitória, área de gestão da Vports, primeira e única autoridade portuária privada do Brasil, o Porto de Tubarão e o Complexo Portuário de Aracruz, que conta com a primeira Zona de Processamento de Exportação (ZPE) privada do país. Essa estrutura poderá facilitar o escoamento de produtos capixabas e de estados vizinhos para os mercados europeus.
O setor de exportação de rochas ornamentais, liderado pelo Espírito Santo no Brasil, vislumbra a ampliação de negócios com países europeus. Itália, Espanha e Portugal, que já figuram como principais destinos dos mármores e granitos capixabas, poderão se beneficiar das reduções tarifárias, aumentando a competitividade da indústria local.
Outro segmento estratégico é o de celulose, no qual o Espírito Santo já é destaque global. A proximidade com grandes players internacionais e a possibilidade de acessar novos mercados na União Europeia podem fortalecer ainda mais a liderança capixaba na exportação desse produto.
Além disso, o agronegócio, especialmente o segmento da cafeicultura, também está entre os setores que poderão explorar melhor a demanda europeia por produtos de alta qualidade e valor agregado. A União Europeia representa um mercado premium para tais produtos.
Os benefícios do acordo não se restringem ao comércio. No Espírito Santo, a aproximação com o bloco europeu pode impulsionar investimentos em infraestrutura, tecnologia e inovação. Empresas europeias, atraídas pela redução de barreiras e pela estabilidade econômica do estado, podem enxergar no Espírito Santo uma porta de entrada para o mercado sul-americano, justamente em um momento em que o governo federal, por meio do Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), está dialogando com o ES para a sua consolidação como plataforma logística e polo estratégico das Rotas de Integração Sul-Americana voltado para o Oceano Atlântico.
A integração com a União Europeia pode estimular o aperfeiçoamento de práticas ambientais e de sustentabilidade no estado. A exigência de padrões mais rigorosos nesses aspectos, prevista no acordo, alinha-se à agenda de desenvolvimento sustentável que já vem sendo adotada pelo Espírito Santo.
Insta salientar que no último mês de outubro foi realizado o Horasis Global Meeting na Cidade da Inovação, em Jardim da Penha, Vitória-ES, onde lideranças internacionais apontaram que o Espírito Santo reúne características para se firmar como a capital mundial das práticas ESG (Environmental, Social and Governance).
Embora os potenciais ganhos sejam significativos, há desafios que precisam ser enfrentados. A indústria brasileira, incluindo alguns segmentos no Espírito Santo, deverá se adaptar à concorrência com produtos europeus de alta qualidade e tecnologia. Investimentos em inovação, qualificação da mão de obra e modernização de processos serão fundamentais para aproveitar ao máximo os benefícios do acordo.
No âmbito político, a conclusão do tratado ainda enfrenta resistências de setores em ambos os blocos, especialmente relacionados a questões ambientais e de subsídios agrícolas. Superar essas barreiras será crucial para que o acordo entre em vigor e comece a gerar os impactos positivos esperados.
O acordo entre Mercosul e União Europeia representa uma oportunidade histórica de integração econômica, com grande potencial para transformar o cenário brasileiro e capixaba. No Espírito Santo, os setores produtivos e a infraestrutura logística podem alavancar ganhos significativos, consolidando o estado como um dos protagonistas no comércio internacional.
Com uma gestão pública organizada e efetiva, sinergia com os setores produtivos, foco na sustentabilidade e investimentos estratégicos, o Espírito Santo está bem posicionado para maximizar os benefícios desse acordo, gerando emprego, renda e desenvolvimento de longo prazo. O ES está preparando para surfar essa onda!

Pablo Lira

Pos-Doutor em Geografia, mestre em Arquitetura e Urbanismo (Ufes), pesquisador do IJSN e professor da Universidade Vila Velha (UVV). Escreve as quartas

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