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Produção de conhecimento

A Geografia através dos tempos: uma ciência de múltiplas perspectivas

Ela é arte, reflexão, análise espacial e crítica. É a ciência que estuda a relação entre o homem e a natureza

Públicado em 

02 jun 2021 às 02:00
Pablo Lira

Colunista

Pablo Lira

Quadro O Geógrafo, de Johannes Vermeer
Quadro "O Geógrafo", de Johannes Vermeer Crédito: Reprodução/Johannes Vermeer
No dia 29 de maio é comemorado o Dia do Geógrafo. Quando essa data se aproxima, minha memória remete ao famoso quadro de Johannes Vermeer intitulado “O Geógrafo”. Na tela, o geógrafo se debruça sobre a análise de um mapa que se encontra aberto sobre a mesa, com compasso na mão e um olhar reflexivo que atravessa a janela por onde entra uma tênue luminosidade do dia. Essa mesma luz destaca, ao fundo da sala, livros, um globo e um outro mapa na parede. “O Geógrafo” de Vermeer evidencia uma postura ativa lançando seu pensamento para além das janelas.
A Geografia é arte, reflexão, análise espacial e crítica. É a ciência que estuda a relação entre o homem e a natureza. Por tomar o espaço como categoria central, a Geografia salienta um vasto campo teórico e um conjunto de ferramentas que favorecem a investigação sobre fenômenos complexos. Conceitos como região, território, paisagem e lugar ampliam as perspectivas analíticas e robustecem as pesquisas geográficas.
Na história do pensamento científico há relatos de contribuições de estudos geográficos desenvolvidos por importantes pensadores, como Heródoto (485 a.C. - 425 a. C.) e Eratóstenes (276 a.C. - 194 a. C.), ainda na Grécia Antiga. O primeiro procedeu uma análise sobre as finalidades do “imperialismo” ateniense, detalhando os territórios com os quais Atenas mantinha relações ou estava em conflito.
O outro foi um dos primeiros a calcular a circunferência da Terra. Utilizando relações trigonométricas e conhecimentos de Geografia, Eratóstenes de Cirene identificou que a circunferência terrestre era de aproximadamente 39.700 km. No século XX, com tecnologias modernas e mais sofisticadas, os cientistas identificaram que Eratóstenes errou por pouco, a circunferência da Terra mede 40.075 km.
A partir do século XIX se intensificou a sistematização da Geografia enquanto ciência com o desenvolvimento do método fundamentado na observação e descrição das inúmeras expedições realizadas por Alexander von Humboldt. Desde então, importantes nomes da Geografia favoreceram sua consolidação científica. Na escola alemã se destacaram além de Humboldt, Carl Ritter e Friedrich Ratzel. Na escola francesa, Élisée Reclus produziu importantes contribuições sobre a geopolítica e Paul Vidal de La Blache ampliou as perspectivas da Geografia com o possibilismo e os estudos regionais.
A Geografia é uma ciência de múltiplas perspectivas. Já no século XX, Yves Lacoste, em uma análise crítica e provocativa sobre os movimentos militaristas das nações, declarou que “a Geografia, isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”. Esse é o título de seu conhecido livro da década de 1970.
Homem segurando globo terrestre
No dia 29 de maio é comemorado o Dia do Geógrafo Crédito: wirestock/Freepik
Na atualidade, David Harvey se caracteriza como um dos pensadores da Geografia mais produtivos que se encontra em atividade. Harvey tem produções clássicas como “Justiça Social e a Cidade”, “Condição Pós-moderna” e “Cidades Rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana”.
No Brasil, são inúmeros geógrafos de destaque que contribuem para compreendermos as relações entre o homem e a natureza. Dentre estes cientistas, podemos citar a vida e obra de Aziz Ab’Saber, com sua notória classificação do relevo e o conceito de domínios de natureza no Brasil, e de Milton Santos, com os densos estudos sobre a natureza do espaço, os circuitos econômicos urbanos e as possibilidades da globalização.
A produção de conhecimento destes e de outros geógrafos se complementa com pensadores de outros campos científicos. Os múltiplos saberes proporcionados pela Geomorfologia, Geologia, Climatologia, Biogeografia, Geografia Política, Geografia Cultural, Geografia Econômica, Geografia da População, Geografia Agrária, Geografia Urbana e Geografia do Crime demonstram a variedade e robustez das teorias e métodos geográficos para o progresso da ciência.
Com a revolução tecnológica dos tempos recentes, a Geografia vem se popularizando por meio de aplicativos de navegação e localização de Sistemas de Informações Geográficas (SIGs). Entretanto, vale salientar que as Geografias e suas possibilidades vão muito além dessas ferramentas tecnológicas. Um exemplo disso são as contribuições da Geografia para analisar e compreender a distribuição espacial da Covid-19 no mundo. A mencionada ciência tem sido muito relevante para o desenvolvimento de estratégias de mitigação e controle da pandemia.
Com essa breve reflexão sobre a Geografia na coetaneidade, deixo aqui minha saudação geográfica para todos os amigos dessa nobre profissão, que cultivam uma postura ativa lançando os pensamentos para além das janelas, assim como a pintura de Vermeer retrata.

Pablo Lira

É doutor em Geografia, mestre em Arquitetura e Urbanismo, pesquisador do Instituto Jones dos Santos Neves e professor da UVV. Escreve às quartas

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