Aprendemos, sobretudo nós, os economistas, que o crescimento é uma obsessão inevitável, e porquanto compulsória, para a sobrevivência das economias tidas como capitalistas. Não haveria assim, inclusive para além do campo das teorias, limites possíveis a essa condição prévia.
Crises, em maior ou menor escala, existiriam como sinalizadores indicativos de falhas e anteparos, funcionando como “freios de arrumação”, para de quanto em quanto entrarem em funcionamento forças transformadoras e corretoras de rotas. No entanto, sem nunca perder de vista a perspectiva de longo prazo da necessidade, compulsória, do crescimento.
Nessa toada, que espelha uma narrativa que podemos afirmar ser praticamente coletiva, nos vemos subjugados a estar sempre olhando e observado o desenvolver do mundo econômico pela ótica da riqueza total agregada anualmente, o PIB. Poucos se atentam ou se preocupam com a possibilidade de se deparar com limites para o seu contínuo crescimento, e mais, em como essa riqueza produzida possa estar resultando em benefícios para as pessoas e sociedades. Estamos falando aqui do crescimento em si e do seu conteúdo, ou seja, para quem vai.
Esses questionamentos não são inéditos. Já foram objeto de atenção e discussão em vários momentos da história econômica mais recente, especialmente em momentos de crise. E agora são retomados por razões que envolvem questões relacionadas a limitações físicas que o próprio planeta Terra impõe, portanto de recursos finitos, e as enormes assimetrias, representadas sobretudo pelas enormes desigualdades econômicas entre pessoas e países.
Aqui vale fazer referência à bela e providencial entrevista dada pelo sociólogo italiano Domenico de Masi à revista EU& Fim de Semana do Valor. De Masi, já bem conhecido aqui no Brasil por obras como “Ócio Criativo”, chama a atenção para o que ele denomina na própria entrevista de mundo do “frenesi do excesso”.
Excesso de riqueza para poucos e falta para multidões. Segundo dados levantados por ele, em 2018, oito pessoas com maiores patrimônios detinham praticamente a metade da riqueza produzida no mundo. Em 2010 esse número era de 300. São os “barões” da nova economia.
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De Masi, no entanto, não deixa de expressar seu otimismo quanto ao futuro, desde que se imponha freios ao “frenesi do excesso”. É a saída encontrada por ele para sustar a obsessão do crescimento contínuo num mundo finito. E aqui vale uma referência feita por ele na entrevista, reportando-se a uma fala de Kenneth Building, um dos formuladores da teoria de sistemas: “Quem acredita no crescimento infinito de um mundo finito ou é louco ou é economista”.