Não me arrisco a cravar o resultado da votação para presidente da República, nem se teremos ou não um segundo turno. Isso, mesmo a despeito do que até o momento apontam a maioria quase absoluta das pesquisas. Até porque pesquisas captam instantâneos na linha do tempo do processo de decisão do voto. O certo é que desde o lançamento das candidaturas ao posto máximo do país nada ameaçou a dupla na liderança. Ou seja, não existiu e nem existirá uma terceira via.
Mas o que percebo como cidadão, com alguma capacidade de leitura do processo eleitoral do momento, que pode ser caracterizado como novo, portanto inédito, é que os holofotes e olhares fortemente concentrados nos dois, que disputam a batalha na ponta, acabam deixando em segundo plano, e assim ofuscando, a eleição para os representantes no legislativo, em especial do Congresso Nacional.
Nunca, pelo menos na minha avaliação, em outras eleições, tivemos um ambiente tão agitado como agora. Discussões acaloradas e ânimos exaltados afloram aos turbilhões, especialmente nas redes sociais. Torpedos carregados de teor explosivo são disparados em ataques e contra-ataques entre “tribos” entrincheiradas em suas “cavernas”. Não se descarta, nesse embate, inclusive estremecimentos nas relações interpessoais, porque não também um certo bloqueio ou comedimento em externar posicionamentos. Até se fala em “voto envergonhado”, que pode não estar sendo revelado pelas pesquisas.
A questão que coloco é que todo esse contexto “belicoso” suprime do eleitor a capacidade e o discernimento de qualificar melhor o seu voto para as casas de representação do povo, a Câmara Federal e Senado Federal. Com certeza, de forma mais intensa, e portanto prejudicial, no caso da Câmara Federal. Pode-se afirmar, nesse caso, que o exercício da democracia é tolhido na construção do “espaço” institucional de alta importância, pois é na casa de “representantes” que efetivamente são discutidos os temas prioritários para o país e são viabilizadas propostas que possam proporcionar melhores condições de vida para a população.
Há, no entanto, ainda dois fatores a prejudicar o exercício pleno da cidadania do eleitor. Refiro-me à forma como são distribuídos os recursos do Fundo Partidário e Eleitoral, e o orçamento secreto. Esses dois fatores garantem condições mais favoráveis aos atuais detentores dos postos de representação política. Como consequência disso, é previsível que tenhamos nestas eleições uma baixa rotatividade. Ou seja, baixa renovação.
Em relação ao resultado da votação para presidente, a única coisa que consigo perceber é que uma derrota de Bolsonaro, que é o que indica as pesquisas, se dará por ele mesmo. Como também será “por ele mesmo” (Bolsonaro) que se elegeria Lula. Que vença a democracia.