Almoçou arroz, feijão, ovo e frango hoje? Agradeça aos produtores rurais. Eles são os responsáveis pelo cultivo e manejo de quase todos os alimentos que consumimos. Ao tomar um café com leite, não se esqueça que alguém teve que plantar e colher grãos de café e ordenhar as vacas. Um mamão de sobremesa? Graças aos pequenos empreendedores rurais. O agronegócio é o segmento mais forte da economia brasileira.
No Espírito Santo, o agronegócio é responsável por 30% do PIB. Há grande diversidade nas lavouras capixabas, e a agricultura familiar é a atividade predominante, ofertando grande variedade de alimentos à mesa do capixaba. O produtor rural capixaba merece reconhecimento no mínimo três vezes ao dia: no café da manhã, no almoço e no jantar. Quem acompanha esses lutadores sabe do sofrimento que passam ao colocar suas famílias e patrimônios para produzir alimentos.
Apesar da extrema relevância exercida por esses homens e mulheres, que produzem alimentos essenciais à manutenção de nossas vidas, lamentavelmente temos assistido a uma perigosa evolução dos assassinatos no campo. O que chama a atenção é a representatividade deste crime na zona rural. Se em 2018 os homicídios no campo representavam 6% do total registrado no Espírito Santo, hoje já representam 8%. Os homicídios estão aumentando nos lugares de onde vem a comida do capixaba. Sem falar dos furtos, que não são nem denunciados, além de outros crimes contra o patrimônio.
Essa evolução desfaz no imaginário (e no cotidiano) das pessoas a ideia de que a zona rural é um lugar seguro e tranquilo. São Gabriel da Palha, por exemplo, que foi sede da operação colheita no ano passado, teve aumento significativo dos assassinatos. Passou de 13, em 2020, para 20, em 2021. Uma cidade de quase 40.000 habitantes convivendo com uma taxa de 50 assassinatos por 100.000 habitantes. Isso representa quase a dobro da taxa média estadual, de 25,8 em 2021 e cinco vezes mais que a recomendação da ONU.
É fundamental frear essa evolução da violência no campo, para torná-lo um ambiente menos propício ao crime. Para isso, o poder público precisa se aproximar dos produtores rurais, agindo em parceria com a comunidade local para a identificação e solução dos problemas concernentes à segurança pública, tendo sempre como objetivo prioritário a prevenção, para que o fato criminoso não ocorra.
Um exemplo é a inexistência da tecnologia do GPS nas viaturas da PM. Tecnologia extremamente popular e barata que seria imprescindível no campo simplesmente não está disponível para policiais até mesmo para facilitar a localização das propriedades, o que demonstra falta de zelo do poder público para essa parcela da população que já sofre com as intempéries do campo e, agora, com ladrões de gado, de equipamentos e ainda com assassinatos e tráfico de drogas.
Como um dos aliados a esse estratégico e necessário esforço, o projeto “patrulha rural” da Polícia Militar deve ser encarado com profissionalismo pelo governo, recebendo reforços humanos, tecnológicos e logísticos, e devem atuar ainda conforme a filosofia de polícia comunitária, ou seja, agindo junto à comunidade.
Está claro que para alcançar um trabalho eficiente na segurança pública é preciso ter gestão competente, com foco no resultado, com os postos de trabalho ocupados por mérito técnico e fora da lógica partidária e eleitoral. Uma gestão que garanta o fortalecimento das instituições envolvidas na política de segurança, dos órgãos responsáveis pelas políticas sociais, e da participação da sociedade civil organizada. Para participar, o trabalhador rural precisa ser acolhido e ouvido, a fim de que o Estado esteja verdadeiramente presente, seja na cidade ou no campo.