Em fevereiro de 2017, assumi o cargo de comandante geral da PM em meio à maior crise da história da segurança pública do Espírito Santo, com potencial para se espalhar por todo Brasil. O momento era dramático! Pela primeira vez em quase 200 anos de existência a PM do Espírito Santo paralisava integralmente a prestação de seus serviços. A população estava em pânico e trancafiada em suas casas diante um movimento que deixou os capixabas reféns da criminalidade.
A paralisação se estendeu por 21 dias daquele revolto mês. Foram registrados mais de 220 homicídios e milhares de furtos, roubos e arrombamentos. Para mim ficou evidente que por trás do movimento paredista atuavam indivíduos movidos por projeto político pessoal. Incitaram a todo momento a paralisação, a prática de graves transgressões disciplinares, insubordinações e crimes com o flagrante objetivo de gerar terror e caos social, tudo como insana estratégia de se buscar capital político. Tentaram colocar fogo no Espírito Santo em busca de votos.
O motim de fevereiro de 2017 marcou para sempre nosso Estado e é prudente não esquecer dessa triste página de nossa história. É fundamental que nossas instituições policiais sejam capazes de entender as lições do passado para continuarem avançando e contribuindo para um futuro de paz, prosperidade e justiça. As polícias precisam estar sempre de prontidão e devidamente vacinadas contra aqueles que possuem a intenção de usá-las indevidamente em benefício próprio.
O caminho trilhado pela maioria dos nossos valorosos policiais sempre foi o do comprometimento com o povo e com os princípios e valores institucionais. Esses servidores sim devem ser reconhecidos e prestigiados em suas carreiras para que possam sempre estar blindando as instituições das investidas da política ruim.
Por isso, imediatamente após o término do revolto mês de fevereiro de 2017, adotamos uma série de novas medidas estruturantes na PMES das quais destaco aqui a atualização das normas de promoção dos oficiais. Aprovada pela Assembleia Legislativa do ES, a nova lei estabeleceu critérios de meritocracia que conduziam ao reconhecimento do mérito e das competências para as promoções.
Tudo conforme o que já estabelece as escrituras sagradas a mais de dois mil anos. No livro de Primeiro Tessalonicenses, capítulo 5 - versículo 12, vamos ler as palavras do apóstolo Paulo: “Agora, vos rogamos, insistimos com perseverança, irmãos, que reconheçais e acateis com apreço os que trabalham, e que os tenham com a máxima consideração, por causa do trabalho que realizam”. A lei era nova, mas a intenção antiguíssima: buscar justiça valorizando os que trabalham!
Na época a nova lei de promoção dos oficiais substituiu uma lei ultrapassada, datada de 1956, que já não atendia aos anseios da instituição nem da sociedade, uma vez que as promoções aconteciam obedecendo apenas ao princípio da antiguidade. Infelizmente a nova lei não durou muito. O mandatário atual de nosso Estado desfez o critério da meritocracia nas promoções dos oficiais, retornando ao “status quo ante”, ou seja, ao estado em que as coisas estavam antes, voltando a valer a lei de 1956.
O governante precisa entender que a Polícia Militar tem na sua essência o compromisso com o cidadão e por isso medidas modernizadoras conectadas com esse novo tempo, voltadas para a produtividade, aperfeiçoamento técnico e que priorize critérios meritórios na valorização e progressão das carreiras devem ser adotadas. Ter apenas o critério da antiguidade para a promoção é injusto e catalizador de zonas de conforto e atitudes inaceitáveis.
É a valorização do mérito que irá separar o joio do trigo nas instituições policiais e consequentemente aumentar a produtividade do trabalho. O joio significa coisa daninha, que surge para tentar corromper, que produz perturbação, que é preguiçoso e nocivo a sociedade. Já o trigo é trabalhador, contribui para paz e gera frutos do bem.
É por óbvio que ao separar o joio do trigo haverá o barulhento esperneio dos frequentadores das zonas de conforto, mas como afirmou Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.
É preciso conduzir as instituições policiais ao encontro dos anseios da sociedade, que deseja instituições que trilhem o caminho da valorização do trabalho, da produtividade e da meritocracia das pessoas, para que possam evoluir nas carreiras aqueles que merecem pelo trabalho que realizam, em consonância com a força, responsabilidade e pujança do Espírito Santo.
Para encerrar quero fazer duas reflexões. Primeira: o erro é parte da espécie humana. Não há ser humano que não erre. Agora o erro precisa ser assumido e analisado, porque de cada erro deriva uma possibilidade de acerto. É evidente, indiscutível e inegável que a sociedade quer ver o trigo, e não o joio, galgando e transpassando os tão desejados postos das carreiras.
Segunda: na primeira Carta de Paulo aos Coríntios ele escreve que “tudo me é lícito, mas nem tudo me convêm”. Uma verdade para todos, mas especialmente para quem detém poder. A frase bíblica quer dizer que posso fazer qualquer coisa, mas não devo fazer qualquer coisa. Então o que não devo fazer? O que mancha minha trajetória, o que prejudica minha comunidade e o que desonra minha posição.