Valho-me da honradez dos anjos plantonistas para carimbar o “de acordo” que garanta a veracidade dos relatos que ora faço. Duas narrativas honestas sobre dois crimes de oportunidade – uma, a de atuar com extrema incompetência na beirada de um fogão e a outra sobre uma espetacular rasteira, tipo enganei o bobo na casca do ovo. Vamos aos fatos.
O primeiro crime se deu no extremo sul do estado, em Ponte do Itabapoana, terra natal do meu amigo Vitor Nogueira. Convidado, fui a uma festinha num sítio onde vivia um primo distante. Dez da noite, falávamos e bebíamos em volta de uma fogueira cercada de esteiras sobre as quais a gente se esparramava. Duas horas mais tarde já existiam mais bêbados do que pessoas bebendo. Todos ali falavam a mesma língua, riam das mesmas piadas, curtiam as mesmas músicas. Mas esse não era o caso dele, um sério candidato a Rei da Cagalhofa.
Eis então que ele se levanta para ir ao banheiro. Pra chegar lá, saindo de perto de onde a fogueira ardia, o caminho mais rápido era passando pela cozinha. Na volta o criminoso fez um pit stop diante do fogão, pensou por uns segundos e resolveu buscar os aplausos da galera, cozinhando. Viu umas cenouras dando mole, partiu em cubos e jogou na panela, e mais um pouco de sal e óleo. Foi quando atravessou a cozinha outro carinha apertado. Viu a cena e deu seu palpite: “Pique umas cebolas e joga dentro”. E assim foi feito.
“Bota macarrão”, disse uma garota que chegou atrás de gelo. E cada um que passava dava um pitaco. E todos experimentavam um pouquinho da gororoba. “Não tá bom não”, esta era a avaliação geral. E o ensopado só piorava. Até que o mais franco dos colaboradores abusou da sinceridade: “Esse seu ensopado, cara, tá mesmo uma merda!"
As última palavras do chef de araque, antes de se escafeder, trazia, pelo menos, uma rala verdade: “Peraí, gente, teve uma hora em que o ensopado até que ficou gostosinho...” Apesar da quase chorosa defesa, qualquer júri condenaria aquele enfeitado Zé Mané por sete a zero.
Uma acelerada no tempo e na distância e já estamos em Guarapari diante da casa simples de um casal amigo de minha família. A propriedade era constituída de dois lotes contíguos. A casa ficava em um deles e no outro apenas a sombra de uma castanheira. À frente, a bela prainha do Meio, meio que abraçando a Pedra do Siribeira.
Um belo dia um homem de seus cinquenta anos, mal-vestido, ar de cansado mas com uma cara de gente boa, perguntou ao dono da casa se ele daria permissão pra montar, no terreno vazio, uma barraquinha pra passar a noite. Gente fina, nosso amigo dono do pedaço, autorizou de pronto.
E atendeu a mais um pedido: deixou que o recém-chegado fizesse uma pequena fogueira pra fazer um café e um rango qualquer pra matar a fome. O recém-chegado então botou fogo nuns gravetos e foi logo catando uma meia dúzia de pedrinhas, que lavou bem lavadas e jogou dentro da panela que trazia. Um pouquinho de água e levou ao fogo. Tudo sob os olhares curiosíssimos do bom proprietário. Que não se conteve e foi logo perguntando o que era aquilo. "Uma sopa de pedras", respondeu o “inquilino”. “Mas não leva nem um pedacinho de carne?” E o da fogueira: “ah... se tivesse seria show de bola!” O dono da casa entrou e trouxe de sua geladeira um pedaço de costela. E depois ofereceu umas cebolas, sal, batatas...
Carne e legumes macios, o esperto acampado, tirou uma a uma as pedras da panela e jogou fora. Pegou uma colher no embornal, sentou-se à sombra da castanheira e, olhos navegando pelo mar azul da Praia do Meio, tomou a sua expertíssima Sopa de Pedras.
O Cobra Criada chegou a pensar em pedir uma cachacinha. Umazinha só. Mas achou que aí seria abusar demais.