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Crônica

Quando o tamanho deixa você de olhos bem arregalados

Quantos engenheiros, arquitetos, quantos construtores assinam essas obras? Ah... são muitos. Acreditem, chegam facilmente à casa do milhar

Públicado em 

11 jun 2023 às 00:15
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Crônica
Crédito: Amarildo
Muitas coisas são capazes de deixar nossos olhos arregalados. Umas, por suas belezas indiscutíveis, outras pelo tamanho extravagante, e outras tantas porque, nem sei mesmo o porquê. Temos, muito perto aqui de nós, três exemplos indiscutíveis dessas maravilhas que esbugalham nossos olhos.
Uma beleza de deixar qualquer um extasiado repousa imponente e bela naquela encosta de Ibiraçu: o segundo maior monumento mundial do venerado Buda. Bonito de tirar o fôlego. Uma maravilhosa obra capaz de deixar suspensa a respiração de quem o admira desde a primeira vez.
Dobrando a esquina da grandiosidade mística chegamos a um exemplo terreno, medalha de ouro no pódio de um endereço sonhado: um edifício de apartamentos, o Taj Home Resort, em Vila Velha. Um residencial com o maior salto alto do Espírito Santo. Dezenas de famílias aguardam a hora de dividir seus sonhos com aquela realidade feita de tijolos e cimento de frente para o mar azul canela-verde. Sem nenhuma ponta de inveja de minha parte, juro, meu comodismo só me faz pensar como serão os “Deus-me-acuda” em que se transformarão as reuniões de condomínio. Imagine só...
Mas o exemplo mais impressionante, em termos de grandiosidade e encantamento, não tem localização precisa. São estruturas sobrepostas, cada vez mais e mais gigantescas, que me deixam assombrado. Não tenho nenhuma dúvida de que jovens, adultos e idosos levantam seu dedo polegar num gesto coletivo de aprovação quase unânime. E falo isso quando, diante daqueles palácios erigidos, digamos assim, é natural flagrar dezenas, centenas até de olhos arregalados, respirações arfantes, até mesmo meios-gemidos do grupo de pessoas encantadas com tanto requinte, como se assistissem ao desfile de carnaval da Escola de Samba da Piedade.
Quantos engenheiros, arquitetos, quantos construtores assinam essas obras? Ah... são muitos. Acreditem, chegam facilmente à casa do milhar. Não, não se riam. Se eu, por ventura, estivesse falando do número de políticos mentirosos, certamente vocês achariam a minha estimativa perfeita. Mas estou falando de gente correta, de bem com a vida.
Hoje, a pandemia nascida no alvorecer dessas construções trouxe para os olhos e o prazer dos enfeitiçados a facilidade de encontra-los à cada esquina, competindo entre si. E o ganhador deste embate ficará com a taça não mais do que uma semana. Hoje o campeão fica na Praia do Canto. Amanhã, em Santo Antônio, depois na Praia da Costa... esses aplaudidos artistas se superam à cada entrega e em cada lugar.
A primeira construção do gênero se deu por obra e graça dos tártaros, uma das primeiras tribos dos povos mongóis. Era tipo um casebre, mas se revelou da maior utilidade na alimentação das tropas durante as guerras. O bebê, posteriormente batizado na Inglaterra de hambúrguer, já crescidinho chegou, no início dos anos de 1900, aos Estados Unidos. Em cinquenta e poucos ao Rio, e bombou há muito pouco tempo nas ruas, botecos, restaurantes e lares dos capixabas. Mas chegou aqui com pretensões megalomaníacas. E voltado exclusivamente para consumidores de bocarras descomunais. Os de boca miúda que não se intimidam teimam em encarar aquele escândalo que dá de ombros pro garfo e a faca. Mas acabam se lambuzando mais do que comem.
Os hambúrgueres de hoje em dia não invejam o Buda. E se gabam de ter proporcionalmente mais andares que o Taj Home. São bonitos de se admirar, cheiram a um manjar dos deuses, mas não consigo nem sequer mordê-los. Falta-me o aparato devido. Tenho boca miúda. Mas me viro bem com o seu primo pobre, o misto-quente.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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