Quem me conhece bem sabe que sou até muito calmo. Quer dizer, às vezes. Mas na maior parte do tempo sou mesmo um sujeito tranquilo. Tranquilo não é bem o termo. Sou um cara de boa. Desde que não me tirem do sério. Por exemplo, se dou quarenta reais para pagar uma despesa de trinta e oito e o caixa da padaria pega de uma maquininha para calcular o troco eu respiro fundo, mas não chego a bufar. No máximo deixo no ar uma vaia contida, tipo “ai, home”, e é só.
Sei, por exemplo, que não é o caso de subir nas tamancas, mas deixo escapar um “eta, ferro!” toda vez que a cena se repete na fila da loteria. É quando a senhorinha à minha frente dá início a uma enlouquecida operação de busca e apreensão em sua própria bolsa atrás do cartão do banco. “Tava aqui hoje cedo!”, repete ela pra todos na fila ouvirem. Embora essa situação não valha a pena ver de novo, parece um filme do Paulo Gustavo: é uma reprise atrás da outra.
O fato de eu ter certas implicâncias acho que não seja o bastante para me rotular de irritadiço. Mas que me incomoda ouvir certas expressões desnecessárias para se fazer entender, me incomoda. Por exemplo: “o Espírito Santo como um todo” ou “qual é o seu telefone de contato?” Tá pra nascer um novo Graham Bell que invente um telefone que não sirva para fazer contato.
Mas às vezes não dá pra engolir em seco. Como nas invasões de privacidade numa manhã de compras na feira. Falo dos ataques estrelados pelos camelôs de políticos que precisavam se eleger, custasse o que custasse. Um sábado desses revelei o meu voto. Era mais um chato a perguntar “você já tem candidato pra federal?” Respondi de pronto: “Tenho sim. Meu candidato é o Rabanete. Pra estadual é o Alho Poró”.
Num imaginário campeonato de aporrinhação, ninguém toma dos vendedores suas taças Jules Rimet. São campeões. Basta você se aproximar da porta de uma loja e é dada a largada: todos querem você pra eles. O que chegar primeiro aperta o play: “Posso ajudar?” Não adianta agradecer com um sorriso, como manda o figurino e dizer “não, obrigado". O ostra vai ficar grudado em você.
Sobre essa gente sem noção quem melhor se safou certa feita foi um velho amigo meu. Ele acabara de entrar numa galeria comercial quando foi abordado por um sorridente e bem falante cidadão. A criatura usava terno e um quase sufocante perfume barato.
O atacante se põe à frente do meu amigo e começa a tirar um monte de folhetos de dentro de sua pasta. E abre o falatório: “O senhor conhece a Praia dos Amores? Fica logo ali, no sul da Bahia... um lugar pra quem ama a vida...” Educado, a paciente vítima do vendedor libera um meio sorriso e diz “não, obrigado”.
Mas o vendedor engrena uma segunda: “ Olha, o sul da Bahia é lugar pra ser feliz... Gilberto Gil não cansa de repetir esta verdade... o sul da Bahia é o paraíso terreno.... E o preço... ah... o preço... dois anos pra pagar...” O cobiçado freguês mas uma vez disse não. Agora com ênfase. E sem o gentil “obrigado”. Então, o mascate começou a exibir no celular cenas ensolaradas do paraíso baiano. E, interrompendo de vez os passos do até então pacato cidadão, ofertou sorrindo: "E vou lhe dar um super golden bônus!!"
A paciência do gentil homem afogou-se de vez no brejo. Segurou então o falante vendedor pelos ombros e fechou a conta: “Olha aqui, ô infeliz, vamos combinar o seguinte: você fica aqui mesmo. Eu é que vou pra PQP!!!"