Imagino como foi divertido a farrinha que elas fizeram naquela tarde em que Elizabeth chegou ao céu. A mesa já estava reservada no Britz Éden, a filial celeste do inesquecível bar da Gama Rosa. Tá espantado por quê? Se gente boa vai para o céu, por que um ótimo bar não iria? E do jeitinho que a gente conheceu: um sinuoso banheiro unissex e uma exclusividade mundial no cardápio: “Aplicação de Azeite – $5,00”.
Pois muito bem, foi lá que tudo se deu. A rainha inglesa chegou bem simplesinha, do jeitinho com que sonhou a vida inteira: sem coroa, sem faixa, sem joias, bem longe da Camila e dos gaiteiros que enchiam seu saco todas as manhãs. A irritante música das gaitas de fole mais parecia um som vindo de um saco cheio de gatos espremidos. Estava sem chapéu e sem bolsa. Irreconhecível, à primeira vista. Mas tão logo pediu uma dose de gim, foi como se tirasse a máscara: “Majestade!”, exclamaram em uníssono as nossas rainhas que a aguardavam.
Esse grupo anfitrião era formado pelas rainhas dos territórios abençoados do Britz, Buteko, Fafi e adjacências. Suas majestades, nossas queridas rainhas Carmélia Maria de Souza, Vera Espindula, Vania Ribeiro de Souza, Emília Petinari, Jeanne Bilich e a rainha primitivista, Nice.
Quem primeiro saudou sua majestade foi o eterno dono do estabelecimento, Eduardo Parú, que, antes mesmo de Elisabeth chegar, botou pra tocar “Dancing queen”, do Abba. Sem parar. Então, Lilibeth sentou-se e pediu mais uma dose de gim. Nice não se aguentou, largou de banda as saudades das telas com as Rainhas do Cacau e deu uma pisadinha na calda real: “Essa gringa é boa de gole!" E levantou o seu copo de cerveja num brinde à nova amiga: God, save the queen!”
A primeira gafe ficou por conta da loura mais simpática do céu, Jeanne Bilich. Desprezando o protocolo real, ela foi ela mesma ao abrir um envolvente sorriso e repetir seu cumprimento preferido: “Ei, Darling!” A mãe de Charles pareceu não gostar muito. Esboçou um meio sorriso, disfarçou e... pediu mais um gim.
Carmélia, só no conhaque. E cuspiu um gole longe ao explodir numa gostosa gargalhada quando Vera Espindula, toda airosa e faceira, perguntou se Bebeth havia trazido seus perfumes. Ao ouvir um “não”, lágrimas grossas desceram de seus lindos olhos azuis, saudosa da sua rica coleção de perfumes que se abrigavam nas prateleira de seu quarto.
Quando sua majestade pediu emprestada a bengala da Félia para ir ao banheiro, Carmélia concordou, mas com uma condição: “Só se você me contar direitinho, tim-tim por tim-tim, a sacanagem que vocês fizeram com o Harry!" Tomou então mais um gole do conhaque e gritou “Viva a monarquia! Quer dizer, viva o simpósio!”
Vania Ribeiro de Souza não conseguiu disfarçar o olhar crítico assim que a rainha manifestou o desejo de se encontrar com Napoleão Bonaparte para lhe dizer poucas e boas. Elizabeth odeia os franceses. Vania não conseguiu ficar quieta: “Napoleão aqui no céu?! Só na cabecinha dessa caçadora de alces”. Vania, uma doce figura, uma simpatia de plantão, não permitiu que a velha senhora inglesa fizesse bravata no céu.
Emilia Petinari, louca pra fumar um cigarrinho, pulou de alegria quando viu Ronaldo Nascimento chegando. “Meu querido, me dê um cigarro. Como você demorou... o que houve?"
"O que houve? Ora, uma babaquice de São Pedro. Chamei ele de Bufete, ele não entendeu a brincadeira e me botou de castigo."
Bufete era o icônico porteiro da boate Buteko. Uma grande figura.