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Memória

Lá se foi Ronaldo Nascimento. E com ele uma época prazerosa de Vitória

Para a rapaziada mais aguerrida e as moças mais avançadinhas do final dos anos 1960, ele se transformou numa espécie de Rei da Noite ao abrir e manter funcionando por um bom tempo a boate Buteko, na curva do Saldanha

Publicado em 19 de Agosto de 2022 às 02:00

Públicado em 

19 ago 2022 às 02:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Ronaldo Nascimento em 2013 no Triângulo das Bermudas, reduto boêmio da Praia do Canto batizado por ele Crédito: Vitor Jubini
Fazia um bom tempo que não o via. Talvez uns 4 ou 5 anos. Não tínhamos amizade com convívio direto e específico. Nunca esteve na minha casa e eu nunca entrei na dele. Nossos encontros eram quase sempre em lugares públicos, cheios de gente. Nossa satisfação em rever-nos era recíproca e os abraços fraternos, como convêm às pessoas que se conhecem há muito tempo, se gostam e se respeitam. Sempre magro, era fácil de ser envolvido e apertado por completo.
Eu me lembro que o olhar dele era sempre inquisitivo, como que querendo saber como estava a minha saúde, como estava no trabalho, como iam os meus parentes e contraparentes. Sua voz anasalada era normalmente alta e contundente. As frases eram ditas com convicção, com a boca bem aberta, mostrando os dentes, e espichando as palavras relevantes da frase.
Nunca vi ou soube que se exercitava com frequência e disposição, em busca de saúde e bem-estar. Na verdade, Ronaldo Nascimento era um cidadão de um tempo em que essas práticas ainda não existiam por aqui. Na Vitória antiga, pouquíssimas eram as pessoas que faziam exercícios regularmente, fora as que remavam na Baía de Vitória, um punhado de halterofilistas e uns poucos nadadores como eu. No mais, os homens disputavam campeonatos de futebol de salão, vôlei, basquete, tênis nas quadras de clubes e muita pelada na rua e frescobol na praia. A imensa maioria das mulheres, no máximo, ficava na torcida.
Dá pra pensar que ele achava graça dessa mania de caminhar em ritmo acelerado nas calçadas, com expressão compenetrada. Mais ainda dos que andam de bicicleta de capacete, sozinhos, em duplas e em pequenos grupos, usando roupas coloridas, próprias dos ciclistas profissionais.
De uma coisa, eu tenho certeza: Ronaldo adorava a noite e, sobretudo, as madrugadas. Era formado em festas de brotos, com pós-graduação em bailes de debutantes. Para a rapaziada mais aguerrida e as moças mais avançadinhas que circulavam por aqui no final dos anos 1960, ele se transformou numa espécie de Rei da Noite ao abrir e manter funcionando por um bom tempo a boate Buteko, na curva do Saldanha. Era lá que surgiu a primeira pista onde se dançava "Satisfaction" com os olhos fechados, os braços pra cima e o corpo balançando no ritmo do rock'n'roll.
A sensação que me veio é que Ronaldo foi levando junto uma época extremamente tranquila e prazerosa que vivemos aqui. Para os saudosos, informo que meu irmão Afonso, seu vizinho de muro por décadas, sabe imitar perfeitamente a sua voz.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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