Dois belos sambas – “Malandro”, de Jorge Aragão, e “Argumento”, de Paulinho da Viola – e uma bela canção – “Sem fantasia”, de Chico Buarque, cantados pelos amigos, homenagearam Ronaldo Nascimento quando do seu sepultamento na quinta-feira (11) da semana passada. Sobre o caixão, um verso completava a homenagem: “Menino vadio, vem que eu te quero todo meu”.
Se Ronaldo fosse descrever a cena, certamente iria emoldurá-la com um “entardecer quase primaveril, prenúncio de lua intensa que iluminaria, pouco tempo depois, o canal de Vitória pelas bandas de Santo Antônio, meio escondida entre as poucas nuvens que flutuavam sob um céu azul”, adaptação que ouso fazer para relembrar, com admiração, o seu ótimo texto “Você se lembra?”, publicado em 1997 no livro 18-Cidade Presépio da coleção “Escritos de Vitória” em que ele revela a sua imensa saudade pelos personagens da cidade dos anos 60/70 que já não existem mais.
“A ilha não é mais a mesma”, escreveu Ronaldo para acrescentar: “Sua geografia, entretanto, continua (...) linda e imprensada entre o mar e as montanhas, por que isso não se pode mexer. (...) Quando as primeiras caravelas aportaram na Prainha de Vila Velha, não foi à toa, e sim por opção dos sabidos portugueses. Rapidamente perceberam que, dominando o morro mais bonito daquele lado do continente, de lá desfrutariam da eterna maravilha de ver Vitória. E a cidade está aí, linda como poucas no mundo, (...) com sua ternura de adolescente, o porto seguro dos meus retornos”.
Conheci Ronaldo quando, em 1965, entrei para “O Diário”, na Rua Sete, jornal que abrigava a sua coluna social dedicada aos jovens, enquanto Esdras Leonor escrevia sobre a geração mais madura. Mais tarde, já em A Gazeta, reencontrei Ronaldo escrevendo sobre a nova geração no “Semanário” editado por Helio Dórea.
Frequentei algumas vezes a sua boate Buteko, no Saldanha da Gama, instalada no porão de pólvora do Forte São João e inaugurada em agosto de 1969, “uma semana depois do festival de Woodstock” como contou em entrevista a Andrea Pena. Acompanhei a distância a sua atividade como profissional na área de turismo (“É bom conhecer o mundo antes de deixá-lo”, dizia ele).
Só há alguns anos vim a saber que era ele o editor – com o pseudônimo “Ronei” – do jornalzinho colorido que era distribuído no Cine São Luiz, no início da década de 1960, com a programação do cinema e algumas notas sociais. Não acompanhei a sua coluna em “A Tribuna”, anterior à sua ida para “O Diário”, nem a que foi publicada na edição capixaba de “O Jornal” do Rio. Mas me recordo das festas da Menina Moça que promoveu no dia dos namorados durante dez anos, com renda revertida para o Educandário Alzira Bley.
A vida de Ronaldo está intimamente ligada ao “Triângulo das Bermudas”, tradicional recanto boêmio de Vitória cujo nome foi escolhido por ele. “Tínhamos três bares que formavam um triângulo; e por ali eu me perdi”, explicava. Lá está afixada a placa em sua homenagem feita pelos seus amigos no outono de 1992. Nela, Ronaldo é descrito como o “navegador noturno (...) que em madrugada tempestuosa, perdeu a rota de casa vindo a dar com os costados nestas plagas por ele batizada de Triângulo das Bermudas”.
Eu me despedi de Ronaldo em um almoço com os amigos do Clube dos Legais no início de julho. Ele me acompanhou na saída do restaurante, conversamos um pouco, e nos abraçamos. Iríamos juntos, dias depois, participar em Linhares do lançamento do livro de memórias do amigo Deni Almeida da Conceição, mas ele, com problemas de saúde, não pôde ir.
“Tem tempo que passa para sentir o tempo e tem tempo que passa e o tempo não sente”, dizia Ronaldo. Pois é, o tempo passou, levou o nosso amigo cuja maior virtude foi multiplicar amigos, e deixou a nossa “ilha do mel” mais triste e saudosa.