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Crônica

Quem poderia adivinhar que o bidê um dia ficaria démodé?

Engenheiros e arquitetos se uniram para inventar moda na área do conforto íntimo. Encolheram o tamanho dos banheiros, e quem dançou? O discreto trono da direita, o bidê

Públicado em 

09 jul 2023 às 00:20
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Crônica
Crédito: Amarildo
A cada volta que o mundo dá, uma novidade bate à nossa porta. Novas práticas, novas propostas funcionais, novas tentações no mercado para o vestir, o comer e até sedutores brinquedinhos para se jogar dinheiro fora. E a humanidade está sempre por aí garantindo aplausos às novidades anunciadas. Mas existem exceções.
Por exemplo: a absurda ideia de arrancar os guardanapos de pano de nossas mesas e ocupar os seus lugares com os similares de papel é um crime inafiançável. Guardanapos de papel sempre foram uma exclusividade de botequins. Hoje, guardanapos de pano só marcam presença em mesas elegantes.
Mas o mais duro golpe que sofremos foi, sem dúvida nenhuma, o que se abateu sobre a ancestral prática do jantar familiar. De uma hora para outra, o delicioso filme do início das noites, o jantar, foi expulso de campo. Atualmente, jantar só em restaurantes. Agora, em nossas casas reinam os lanches. Acabou-se a esperada refeição familiar que se iniciava com um belo prato de sopa, uma salada, arroz, carne e batatas, por exemplo. A fome agora é mitigada com pão, café, leite e vai por aí. A fome? Parece que era uma fantasia tola de nossos estômagos.
Outro crime inconcebível cometido pela mídia foi o imperdoável assassinato do tango. Foi ela quem o empurrou de volta até o sul do continente e o afogou impiedosamente nas águas caudalosas do Rio da Prata. E abriu as cortinas para o sertanejo pop. Dançamos. E, ao que parece, para sempre.
E alguém me dá notícias do Basilicão? Às voltas com um pequeno furúnculo no braço, um amigo meu foi até uma farmácia atrás do medicamento. Lá o informaram que o Basilicão partiu sem dizer adeus. Pediu então um sucedâneo. “Não existe”, informou a balconista que lhe sugeriu procurar um médico e pedir uma receita de antibiótico. Não era o caso. Voltou de mãos abanando para casa, entrou na cozinha e fez, de memória, um emplastro de farinha de mandioca, especialidade da falecida mãe. Apesar do amadorismo, deu certo. O furúnculo vazou no dia seguinte.
E por que esconderam das crianças o presente do indicativo dos verbos? Um absurdo, isso não se faz! Quem já é adulto continua conjugando verbos em todos os seus tempos. Já os nossos moleques, não mais. Experimente perguntar a qualquer criança se ela gosta, por exemplo, de sorvete. Todas, sem exceção, responderão “sim!”. Nenhuma delas dirá “eu gosto”. Como é o usual. Copiaram dos americaninhos do norte o “yes”. “Quer ir à praia?” E o filhote: “sim!!”. Ah... assim não vale...
De outro lado, engenheiros e arquitetos se uniram para inventar moda na área do conforto íntimo. Encolheram o tamanho dos banheiros e quem dançou? O discreto trono da direita, o bidê. Aquele craque do segundo tempo que nunca fez mal a ninguém foi trocado por um chuveirinho chinfrim, pendurado no azulejo como um colar gigante de gosto duvidoso.
E já chegou dificultando. No bidê, bastava sentar-se e abrir a torneira. Já ele, que entrou no final da partida, exige ser conduzido com a mão às posições mais adequadas para um resultado higiênico perfeito. Sem graça, sem charme e, ao contrário do antigo titular que oferecia as opções frio e quente. Este novato ainda tem muito o que aprender. E aquecer, porque no inverno as pessoas sonham com o calor.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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