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Crônica

A memória das gavetas dá de dez a zero nas suas

Apesar desse precioso serviço, a gente não dá a menor bola pra elas. E olha que por esse plantão de 24 horas não pagamos nem um tostão. Vivemos em débito com as gavetas

Públicado em 

25 jun 2023 às 00:30
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Crônica
Crédito: Amarildo
Muitos, mas muitos anos antes de a gente nascer, as gavetas já vinham acumulando memórias domésticas, comerciais e de bugigangas afetivas. Em sua rede de filiais espalhadas por toda a casa – quartos, lavabos, escritórios, cozinha- elas estão sempre de plantão para exibir de um tudo, quando abertas.
Documentos, dinheiro e tudo aquilo que você entregou aos seus cuidados. Mas apesar desse precioso serviço a gente não dá a menor bola pra elas. E olha que por esse plantão de vinte e quaro horas não pagamos nem um tostão. Vivemos em débito com as gavetas.
E inadimplentes também com quem nos garante dias mais confortáveis por onde quer que andemos: as bermudas! Essa grande invenção dos ingleses, que um dia cortaram as pernas das calças da tropa para facilitar o combate em regiões de muito calor.
Quando começamos por aqui a botar as pernas de fora, ali pelos idos dos anos 50, demos um bom esbarrão no calor. Hoje em dia as ruas andam cheias de calças cortadas. Elas levam idosos, crianças, adolescente, homens e mulheres para o trabalho, para festas, shoppings, o escambau.
No entanto não damos pelota para tanto conforto. Dirão alguns que somos uns ingratos. Mas não. É que a maioria da população já nasceu confortavelmente dentro delas. Bebês contemporâneos, por exemplo, devem achar que sempre existiram fraldas descartáveis. Porque jamais viram um varal varado de fraldas de algodão secando ao sol. Reclamamos de muitas coisas ruins, mas também somos muito ruins em reconhecer tudo aquilo que a vida nos dá de bom.
Em muitas situações damos de ombros quando deveríamos ser agradecidos. Alguma vez, por exemplo, já lhe passou pela cabeça o quanto devemos ao genial Elis Otis, o inventor do elevador? Volto e meia penso nesse americano quando aperto o botão do oitavo andar onde moro. Imagine o tempo gasto e o cansaço diário para se chegar em casa pelas escadas, depois de um dia inteiro de trabalho? E o que seria do boêmio, depois de uma noitada mergulhado em copos de uísque e cervejas, querendo abraçar seu travesseiro? Certamente acabaria dormindo no quinto degrau do calvário que o levaria até a cama.
E o zíper? O mágico zíper... merece ou não merece um tapete vermelho? Quem é homem e anda aí na casa dos 60 ou mais padeceu um pouquinho a cada vez que procurava um mictório para verter água, como se dizia. Não podia ter pressa. Antes era preciso desabotoar os três botões da braguilha. E depois abotoá-los de volta. No inverno, quando mais se urina, era trabalho dobrado. E hoje não damos nem uma piscadela amiga pra ele, do tipo “valeu, meu parça!”
Apesar de congeladas em imaginários frigoríficos, e desprestigiadas por um mundo de gente, as gravatas borboletas não estão mortas. Antes da aposentadoria elas pousavam toda a sua elegância em nossos pescoços. Sumiram de cena mas ainda se mantêm de plantão nos armários das pessoas de bom gosto. Festeiras de primeira linha, por aqui não veem a hora de voltar, uma vez mais, ao Baile de Gala do Caçadores Carnavalescos Clube, de Cachoeiro de Itapemirim. Amor antigo, sabe como é...

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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