Aos poucos, a iniciativa talentosa de um anônimo morador que pintou no muro de sua casa um flagrante do cotidiano da vizinhança ganhou seguidores. Não apenas dois ou três. A ideia passou a ser copiada em cada canto da cidade. Figuras humanas e cenas da natureza são retratadas em muros e paredes sempre em cores primárias, num estilo ingênuo cativante.
Visto com bons olhos por toda a mídia, a massificação da ideia avizinhou-se da mesmice. E tirou da retina o bucolismo natural de cada ruela, cada ladeira escadarias e esquinas. Locais onde viveram os bisavós, avós, pais, amigos, amantes. Lugares onde todos cresceram.
Eu me pergunto com que cara ficaria a pedra do Penedo, se as autoridades permitissem mascará-la? Toda ela decorada, possivelmente, com imagens de panelas de barro recheadas de moquecas fumegantes, velhas catraias, tarrafas e baleias Jubarte saltando exageradamente para fora dágua? A amurada da avenida, pincelada, de cabo a rabo, com o vermelho dos tomates, o louro das cebolas e canteiros e mais canteiros de coentros mereceria os seus aplausos?
No farol da entrada da baía talvez cordas de caranguejos, siris e guaiamuns. Aqui e ali, potinhos de barro com molho de pimentas. Sei não... mas muitos acharão lindo. Uns poucos, nem tanto. A turma que não sai de cima do muro atravessaria a rua para desguiar do repórter e não dar a sua opinião. De minha parte sigo balançando a cabeça, de um lado pra outro, esperando ouvir do bom gosto a palavra final.
Cores e formas, não exatamente as exibidas nas paredes, mas no embrulho de nossos corpos, por exemplo, têm a vantagem de serem trocadas de tempos em tempos. Por exemplo, a sua vizinha que anda por aí hoje em dia, toda chique, metida numa saia e blusa de cores neutras, é a mesma que não resistiu ao risível modismo da época e saiu por aí dentro de um vestido saco, tendo ao lado um cara fraco, metido num terno de linho branco e lenço de quatro pontas no bolsinho do paletó. A gravata, eternamente a mesma, espremida por um prendedor folheado a ouro, herança de família. Tudo inspirado no estilo careta do charmoso astro Humphrey Bogard. Seu bigode fazia parte do pacote.
Falei, falei... mas ainda não convenci ninguém se estou a favor ou contra os murais com cara de um mesmo autor. Não quero ser um desmancha prazer, estumando os cachorros contra os muros, nem dormir e sonhar que o meu silêncio vai me levar ao cadafalso.
Em meio ao turbilhão (exagero um pouco) de prós e contras, eis que um cena, guardada na prateleira de minhas melhores lembranças, chega correndo em meu socorro. Era a primeira vez que a TV Gazeta promovia uma sessão de cinema para convidados. Foi no Cine São Luiz, ali no Parque Moscoso. No cardápio o lançamento mais aplaudido do cinema americano de então: "2001, Uma Odisseia no Espaço". Sala lotada. Um senhor espetáculo. Aplausos ao final.
No saguão do São Luiz uma equipe de externa da TV Gazeta entrevistava expectadores encantados com o que acabaram de assistir. Até que chegou a vez do senador Carlos Lindenberg. Ao ser perguntado o que achara do filme, ele, que tinha outras preferências cinematográficas, manteve o seu estilo elegante e educado ao dar a sua opinião. Todos à sua volta comentavam com empolgação a sensacional obra de Stanley Kubrick. O senador achou que não era hora de ser “do contra”. E muito menos de mentir. Olhou então para a câmera e sentenciou: “Nunca vi nada igual”.
Sobre a farra pictórica dos muros, devo declarar que também nunca vi nada igual.