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Crônica

Boquinha de urna na feira de Jardim da Penha

A grande verdade é que a maioria dos eleitores não está nem aí pra taioba refogada. Seguem firmes acreditando num milagre

Públicado em 

17 jul 2022 às 02:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Marcos Alencar
. Crédito: Amarildo
Acho que ninguém curte mais uma feira livre do que eu. Aqui, em Montevidéu ou em Bom Jesus, às margens do rio Itabapoana. Conheço todas elas. Mas, religiosamente, aos sábados, eu me enfurno na feira de Jardim da Penha atrás de verduras, legumes e novidades. Estas nem sempre são agradáveis.
Se por um lado comemoro o início da temporada das mexericas, doces como o mel do Assa-peixe, por outro, assombra-me as azedas figuras de políticos em campanha. E eles pisam na passarela meio perdidos, mas com sorrisos em punho. A cada quatro anos eles confundem coentro com eleitor e invadem o pedaço atrás de votos. Felizmente os coentros são espertos e fingem-se de murchos aos vê-los passar.
Ontem, por conta dessa inconveniente invasão, muito a contragosto, fui embora mais cedo e acabei deixando as taiobas que eu tanto queria para trás. Mas valeu reencontrar um velho amigo na volta à Praia do Canto, “quentando” sol pertinho da banca de revistas.
Famoso pelo seu radicalismo, fui chegando e provocando: "Fala aí quem são os políticos em que você realmente confia. Seja sincero. Ele não parou pra pensar". E ele: "Brando Benifei, da Itália, a alemã Katarina Barley e Paul Tang, dos Países Baixos. No Brasil, confio mais ou menos e um ou dois . Só não digo os nomes que é pra não correr o risco de queimar a minha língua."
Tomamos então uma água de coco no carrinho ali da esquina e aí ele se foi murmurando seus versos preferidos: “Político honesto é igual caviar. Nunca vi, não conheço, só ouço falar.”
Ao contrário do exaltado extremista, eu até que gosto de eleições. Não exatamente dos candidatos de sempre mas da festa nos domingos de votação. Aquelas mulheres bem-arrumadas, aqueles homens mal vestidos, a turma dos cinquenta reais fazendo boca de urna... Paris é uma festa! Quer dizer: domingo de eleição é uma festa. A hora da choradeira é um pouco mais tarde. Ali pelas nove da noite, quando divulgam os primeiros resultados. Hora de eles caírem na real e da gente dizer bem-feito! Numa boa. Sem radicalismo, claro.
Bem diferente dos devotos incuráveis tenho visto muita gente que prefere ir pescar berés ou filosofar nas redes sociais sem imaginar o mal ou o bem que sairá da cartola democrática.
Bem, bem mesmo, eu não levo fé. E você também não levaria se prestasse atenção nos trailers que atrapalham a gente assistir aos programas que queremos na televisão. Vai depender se você prefere o irritante horário eleitoral ou os beijos ardentes da novela à beira-rio.
A grande verdade é que a maioria dos eleitores não está nem aí pra taioba refogada. Seguem firmes acreditando num milagre. Ou, como diz Zeca Pagodinho,  "depois que a gente erra o prédio, qualquer andar serve”.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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