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Crônica

Mentirinhas do bem: do LSD de Carmélia ao pôr do sol de Colatina

Essas são duas mentirinhas top de linha que conto aqui. O que mostra que nem sempre elas merecem castigo

Públicado em 

03 jul 2022 às 02:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Crônica
Marcos Alencar, Carmélia e Amylton, pelos traços do chargista Amarildo Crédito: Amarildo
Nem sempre uma mentirinha merece castigo. Logros, especialmente aqueles voltados para a população infantil, deveriam ser sempre absolvidos nos tribunais da vida. Simplesmente por não causarem males severos ao universo da criançada. Coisas do tipo “contar estrelas no céu faz nascer verrugas.” Meninos mais destemidos costumam brincar assim, disputando quem contava mais, naquela época sem televisão, sem computadores e sem celulares.
Era muito comum também nas cidades do interior, num passado não muito recente, quando uma mocinha trocava de roupa na frente do irmão mais novo, o ameaçava “Se olhar, Santa Luzia fura os olhos”. Havia também estratégicas crendices protetoras: “Se andar de costas, garoto, sua mãe morre!",  evitando assim possíveis tombos da molecada.
Adultos também merecem aplausos sempre que a enganação aponta para o bem. Quando se quer levantar o astral ou dar uma forcinha a um amigo, por exemplo. “Você tá mais magro!”, mentindo-se para um querido amigo gorducho. Ou “ Hoje você está ainda mais bonita”, acariciando o imaginário da mocinha feia.
Existem também as mentirinhas top de linha. Veja essa que rolou há uns quarenta anos numa noite em que fomos tomar uns uísques na casa de um confrade. O grupo era formado por Xerxes Gusmão, Carmélia Maria de Souza e Amylton de Almeida. Velhos e saudosos companheiros. A noite corria risonha e franca até Amylton começar a implicar com os anfitriões. Típico do tinhoso Amylton. Uma ironiazinha aqui, uma sacaneadazinha ali, e o caldo ameaçando ferver.
Temendo um mal maior, Carmélia pediu silêncio e fez o convite, com um olhar bem sacana: “Querem experimentar LSD?”.  Apesar do nosso espanto, a curiosidade falou mais alto e deixamos ela pingar: “É do tipo líquido e é uma gota só pra cada um”, explicou a Félia. Bebemos o uísque assim batizado, e ficamos nos entreolhando, esperando ver a onda que iria dar.
Meia hora depois, resolvemos, meio derrubados, ir embora. Cada qual pra sua casa. Na noite seguinte, cheguei ao Britz e lá já estava Carmélia tomando um conhaque. Fui logo contando que a droga não havia causado efeito algum. Nada vezes nada. E ela, com o mesmo sorriso sacana da noite anterior, arrematou: "Claro que não! Vocês beberam do meu colírio!" E com essa sábia mentirinha evitou uma possível guerra na casa dos amigos anfitriões.
Mas, delícia das delícias, foi a sacada do velho e saudoso amigo Heitor Nogueira, colatinense de coração. De tanto que eu andava lendo por aí que Colatina se orgulhava de ter o segundo pôr do sol mais bonito do mundo, perguntei a ele quem foram os jurados que votaram pela tão honrosa escolha.
Ele então me confidenciou que, por conta de um aniversário da cidade, escreveu uma crônica de amor ao lugar, revelando em primeira mão que o belíssimo pôr do sol de Colatina era o segundo mais bonito do mundo. Segundo, mesmo?! "Claro!",  confirmou ele com segurança. “Se eu dissesse que era o primeiro ninguém acreditaria em mim".

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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