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Crônica

Acabei levando um gol de letra

Conhecedores da minha guerrinha santa, alguns indignados cidadãos resolveram dar o troco. E não é que me atingiram em cheio e me deixaram marcado para o resto da vida?

Públicado em 

17 set 2023 às 00:30
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Amarildo
Crédito: Amarildo
Muito antes das bikes serem chamadas de “magrelas”, contava-se que no Reino dos Céus os anjos passavam os dias a repetir, de maneira desencontrada, uma espécie de “cumpra-se” celestial: o “amém”. E todos os pensamentos e palavras, gentis ou ácidas, proferidas pelos humanos no momento em que o anjo dissesse "amém" se tornariam realidade.
Desde então pastoreio meus pensamentos com o mesmo rigor de um porco espinho fazendo sexo: com muito cuidado. Cada ser humano que esteja insatisfeito com o comportamento alheio pode recorrer a essa ajuda celestial. Eu tenho futucado com força os anjos pensando em dias melhores para mim e para todo mundo também. Mas, por favor, não me confundam com um alguém obcecado, com interesses escusos. Sou um futucador do bem.
Pelo menos duas vezes por dia venho esperando que um bendito anjo diga amém para uma revolucionária ideia que acalento visando melhorar a vida política em nosso país. Não tenho certeza de que todos sentem o mesmo incômodo que eu ao ouvir diariamente, em todas as mídias, os blablablás de sempre. Minhas trompas de Eustáquio já estão com reumatismo infeccioso de tanto serem marteladas pela falação vinda de Brasília. O que eu gostaria mesmo é de ver aprovada uma lei que proibisse presidentes da República de... falar. Simples assim. Boca só para beber e comer. Falar não! Até o final do mandato, mudinhos da silva. Imaginam só que alívio?
Tem mais. Brasileiro que queira disputar eleição para vereador, deputado estadual, federal e senador terá que ser aprovado em concurso público. Que tal? Eleitos, só poderiam se pronunciar em plenário. Discursos em eventos, lives nas redes sociais e entrevistas só por dois minutos. De quinze em quinze dias. Em dezembro, prova final.
Governadores e prefeitos ficariam proibidos, durante o mandato, de rir, sorrir e acenar para quem quer que seja. Um leve meneio de cabeça já está de bom tamanho. As Inaugurações não poderão ser badaladas antecipadamente. Ficou pronto, inaugura. Colher de chá: no dia, os foguetes estarão liberados.
A grande verdade é que com os anos de vida pesando em nossas costas, bastam pequenas bobagens para nos apoquentar. A moça da lotérica repetindo: “aperta o verde”, os bebês sendo empurrados por babás mudas, futucando seus celulares o tempo inteiro, nos dando a impressão de que a turminha da fralda está a bordo de um Uber, cachorros trançando nas feiras livres, gente chatíssima (as simplesmente chatas a gente vai levando), coisas assim.
Conhecedores da minha guerrinha santa, alguns indignados cidadãos resolveram dar o troco. E não é que me atingiram em cheio e me deixaram marcado para o resto da vida? Inconformados com a possibilidade de um amém angelical às minhas propostas radicais, eles vieram com tudo pra cima de mim. Conseguiram um amém de algum anjo distraído e... o meu mundo caiu. Meu mundo não, meus cabelos. Agora eles só batem uma bola nas laterais.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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