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Crônica

Verdade 'on the rocks': beba com moderação

Na quase totalidade das vezes queremos tão somente sublinhar um evento acontecido para dar um pouco mais de brilho, torná-lo mais expressivo de que de fato ele é

Públicado em 

03 set 2023 às 04:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Amarildo
Ilustração da crônica de Marcos Alencar Crédito: Amarildo
Bem que a gente gostaria que a verdade jamais carregasse na mochila seus brinquedinhos preferidos: o “juro por Deus", o “pode perguntar pra fulano” e o “quero ver minha mãe mortinha”. Mas isso não acontece. Passamos a vida à cata de testemunhas que nos ajudem a descolar uma absolvição.
Daí a enxurrada de meias-verdades que atiramos à mesa. Não por sermos falsos e enganadores. Creio que não passa pela cabeça de ninguém dourar a pílula apenas para ficar bem na foto. Não. Na quase totalidade das vezes queremos tão somente sublinhar um evento acontecido para dar um pouco mais de brilho, torná-lo mais expressivo de que de fato ele é. A meia-verdade é uma tração nas quatro rodas em qualquer rodovia. Asfaltada ou barrenta. Fosse um filme, seria dele o Oscar de efeitos especiais.
“Seu bebê é a coisa mais linda!", exageramos, quando na verdade o neném é apenas bonitinho. “Onde você comprou este tapete? Amei!” Coisa nenhuma! Numa boa, você nem gostou dele tanto assim.
“Que tal este rocambole de bacalhau?” “Fantástico!! Vou fazer!", diz o enganador-chef de cozinha. Que mentira, que lorota boa!
A triste verdade é que começamos muito cedo a receber aulas particulares de AIOM (Análise e Interpretação das Ordens Maternas). Uma forte equipe de professores formada pela mãe, pelo pai e pela babá. E, com a cabeça virgem de seus três, quatro anos de idade, a garotada acaba cedo tirando nota dez. São eles quem arrasam nas primeiras aulas de Prática Diária da Meia Verdade: “Foi o Eddie quem fez xixi na sala”, diz o molequinho aprendiz. Tenha a certeza de que foi a partir de suas promessas vãs que deu-se este aprendizado. Quando você dizia: “Se você continuar cuspindo fora a papinha, nunca mais vou te levar ao parquinho!!” E dois dias depois, já estava no escorrega da praça.
Assim que as crianças deixam de fazer xixi na cama, já estão graduadas para a prática das várias mentirinhas de primeiro grau. E se bobear – queira Deus que não! – elas podem fazem carreira e chegar até a jurar que não têm a mínima ideia de onde foi que se meteu aquele Rolex. Mas aí já estamos falando em pós-doutorado.
No início do primeiro grau começa-se a reeducação da criançada, asfaltando-se o caminho da verdade para, só então, seguir pela vida com um comportamento exemplar. É quando pedimos ajuda a Deus: “Não pode pregar mentira, não, porque Papai do Céu não gosta.” Ou ainda de forma mais radical: “Se pregar mentira, quando morrer, você não irá para o céu!”.
Mas ainda temos que conviver com uma mentira protocolar. Em algumas situações podemos ser levados a mentir porque não nos oferecem outra opção. Impõe o juiz, sem lembrar de que a vida é uma grande interrogação: “Promete amá-la(o) na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza?" Aí você não tem mesmo saída e crava um bem intencionado “sim”. Melhor seria responder: “Tomara que sim. Tomara mesmo.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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