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Crônica

Esta Ilha ainda é mesmo uma delícia?

As autoridades responsáveis por fazer desta cidade um lugar tranquilo para se viver acenam, orgulhosamente, para todos com estatísticas que mostram que este ano a criminalidade insular desabou alguns "xizinhos" por cento

Públicado em 

10 set 2023 às 00:30
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Amarildo
Crédito: Amarildo
Quando a inesquecível cronista Carmélia Maria de Souza, a mais divertida companhia feminina das noites de boemia, criou o bordão “esta Ilha é uma delícia”, os que pensavam tratar-se de um verso de amor a Vitória mal sabiam que era justo o contrário. Sempre que ela topava com um mal feito na cidade, por pensamentos, palavras ou obras, gritava para quem quisesse, ou não, ouvir: “Esta Ilha é uma delícia!!”. Puro deboche. Era como jogar um beijo, fazendo figa com os dedos da mão. Até o dia em que a galera congelou o sarcasmo e trouxe para o sol o aplauso. Para ser usado sempre que a cidade e seus cidadãos estivessem de boa.
Mas por onde anda aquela Ilha deliciosa de outros tempos? Tempos normais, de sol de praia, de vento sul, de moqueca de siri mole e bolero e samba nos fins de semana. Mas sem saudosismo choroso. Sem dor de cotovelo. Sem uma lágrima furtiva sequer. Tempos apenas de boas lembranças. Tempos em que nossos homens públicos acenavam com esperanças e não com justificativas: “A obra atrasou porque choveu", e tome de declarações à mídia. "Porque o guarda-corpo está dando choque", e tome entrevista. "Porque os bandidos fugiram para o mato, discursos, declarações e entrevistas, porque o mato pegou fogo, porque os marginais assaltaram a farmácia", e mais entrevista, "porque a Upa não abriu hoje pela manhã, porque o trânsito na Leitão da Silva está interrompido por causa do tiroteio entre gangues rivais", entrevistas, entrevistas, entrevistas, balas perdidas, "porque se não fizer o BO não podemos prender o criminoso", "porque a reforma da Terceira Ponte atrasou outra vez", e tome balas perdidas, arrombamentos, chacinas, tiroteios pela manhã, à tarde, à noite, na madrugada. Justificativas na TV, no jornal, nas rádios sobre o novo atraso na reforma da Terceira Ponte, assaltos à luz do dia, as lanchas voltaram, mas não dão conta da fila de passageiros, assaltos em pontos de ônibus, porque o mercado ficará pronto daqui a cinco, ou seis, ou sete meses. Quando mesmo? "Em breve. Porque, porque, porque...”
Vitória já não é mais tão deliciosa como sempre foi. Não, não mesmo. Não por culpa dela mesma, mas por culpa dos homens. As ondas de nossas praias seguem iguais desde que as encontrou o nosso descobridor. Mas hoje trazem, volta e meia, num samburá águas impróprias para o banho, lixo, tartarugas mortas nas redes de pesca, assaltos, arrastões...
Mas por onde andam as delícias de Vitória? Ganhamos um moderno aeroporto, ruas bem sinalizadas, bem arborizadas, bem iluminadas, limpas como nunca ... e o que mais? Ah... sim, medo, muito medo. Medo pela manhã, à tarde, à noite e madrugada adentro. Medo. Quem decide a sua vida hoje em Vitoria é a sorte. São várias as opções de que dispõem a bandidagem para tomar seu carro, seu dinheiro, para meter-lhe uma faca na barriga ou até mesmo matá-lo. Todas estas cenas podem acontecer na rua, na lojinha do bairro, no estacionamento do aeroporto, na farmácia, num templo religioso, no supermercado, nos abrigos de ônibus, no shopping, no trânsito...
As autoridades responsáveis por fazer desta cidade um lugar tranquilo para se viver, trabalhar e ser feliz acenam, orgulhosamente, para todos com as estatísticas que mostram que este ano a criminalidade insular desabou alguns "xizinhos" por cento. É, até os percentuais nos castigam. Vitória de hoje é uma delícia para os bandidos. Não ande por aí sem um galho de arruda na orelha.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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