Por estes dias andei me lembrando de uma gostosa temporada em Cuba. Como poucos sabem, lá não existe esta coisa – eles dirão, burguesa – da qual não abrimos mão, chamada tira-gosto. Em Havana, escreveu Hemingway sobre os dois icônicos bares da cidade: My Mojito in La Bodeguita e My Daiquiri in Floridita. Dois endereços famosos onde servem aplaudidos coquetéis cubanos, mas onde os torresmos e as azeitonas pretas jamais chegarão à sua mesa.
Jamais é um exagero. De braços dados com a sorte, terminei dando de cara com o tropicalíssimo restaurante El Patio. Virei freguês. Graças aos cardumes de lagosta que cercam a ilha e às boas relações com a Rússia, o avarandado restaurante serve uma lagosta grelhada com caviar, “perfectos". Pedido o prato, o que seria o almoço eu o transformava habilmente, com a faca e o garfo, num requintadíssimo tira-gosto. Tomava então uns drinques e curtia a tarde, fumando um “puro”.
Andei me perdendo um pouco nos daiquiris, nos mojitos, nas lagostas e no caviar, mas acabei chegando aonde mais queria: ao café do Hotel Ambos Mundos. Poucas mesas e um velho piano onde Cecilia tocava a belíssima “Dos Gardenias”. Foi a música que me levou a entrar. Aplaudi a pianista que veio, simpaticamente, a minha mesa. Assim que descobriu – foi fácil, claro – que eu era brasileiro voltou ao piano e presenteou-me com “Eu sei que vou te amar”. Um belo entardecer.
Meus amigos de Vitória desconhecem a minha intimidade com o piano. Dos oito aos quinze anos de idade tive professores por onde morei. Em São João Nepomuceno (MG), em Mimoso do Sul e, por último, em Bom Jesus, no Estado do Rio, onde cheguei a tocar alguma coisinha de Mozart e de Tchaikovsky. Mas sempre sentia vontade de caçar passarinhos quando chegava a hora de repetir e repetir as malditas escalas musicais.
Já sessentão, minha mulher me deu um piano de presente. Fiz algumas aulas, mas acabei abandonando o instrumento. Dei então de presente para Izadora, minha neta, que iniciava sua carreira musical. Dois anos depois ela resolveu dar um tempo... e o piano voltou aqui pra casa.
Olho pra ele – amor antigo – mas não me sai da cabeça a violência da minha última professora. Eu estudava na casa dela. Ela ficava cuidando dos afazeres domésticos e, volta e meia, chegava junto para me corrigir. Um belo dia eu repetia pela enésima vez uma maldita escala, quando lá da cozinha ela gritou: “Si bemol!!”. “Foi o que eu toquei", respondi. E ela, quase rosnando, “você tocou si natural”.
Repeti a escala, duas, três vezes e ela de longe, aos gritos, me corrigindo. Na quarta vez em que eu erradamente esbarrei meu dedo no si bemol, ela, que silenciosamente chegara por cima do meu ombro, deu um soco no meu dedo pecador, espremendo-o na tecla errada. E ríspida: “Quer me enganar, seu idiota? Eu tenho ouvido!! E chega por hoje”, mandando-me embora pra casa. Larguei ela e o piano naquele mesmo dia. Mas como me arrependo... não me perdoo ter deixado o piano de lado e não ter permitido que mamãe desse uma boa lição nela. Em si bemol.