Vitória é uma cidade muito especial. Dotada de uma beleza só comparável ao Rio de Janeiro – a Cidade Maravilhosa –, não reluto em considerá-la a segunda mais bela capital do país. Em razão disso, como estudioso da mobilidade e da evolução das cidades, me veio à mente o desejo de levar ao leitor algumas memoráveis lembranças dos tempos que antecederam a expansão urbana da nossa Capital. E são tantas e boas recordações que fica difícil sintetizá-las neste limitado espaço. Vou tentar.
Capixaba nascido na antiga Av. Capixaba (hoje extensão da Av. Jerônimo Monteiro), remonto aos anos que a cidade se limitava ao perímetro da ilha e, para quem morava no Centro, tudo ficava perto. As pessoas se deslocavam a pé ou de bonde e os poucos carros eram usados basicamente para passeios de fim de semana. Eu ia de bonde para o Colégio Estadual. Jardim da Penha, Jardim Camburi e outros bairros da parte continental surgiram depois.
Bons tempos! As crianças brincavam na rua, jogavam pelada, bola de vidro, soltavam pipa, etc. Não havia TV, assaltos nem violência. Os adultos curtiam longas conversas sobre futebol e política na Praça Oito e na barbearia de Jorcel Garcia, na Praça Costa Pereira.
Para os mais chegados aos bate-papos de bar, havia o Sagres, ao lado do Correio, Marrocos, na Rua Duque de Caxias, Pinguim, no início da antiga Av. Capixaba, e o Bar Santos, na Vila Rubim (os mais antigos). Vieram depois o Dominó e o Drink, no Parque Moscoso, e o Britz, na Rua Gama Rosa – um misto de bar/lanchonete/restaurante, ponto de encontro da juventude, jornalistas e intelectuais.
O cinema era uma das principais diversões da época. Primeiramente nos teatros Glória e Carlos Gomes e posteriormente em outros cinemas mais modernos. No esporte, o futebol capixaba não era muito distante do praticado pelas grandes equipes nacionais, e estava muito acima do nosso medíocre futebol de hoje. O Estádio Governador Bley era palco de grandes partidas dos times locais – e também com grandes times nacionais, disputadas de igual para igual.
Mas havia ainda as regatas náuticas disputadas pelo Saldanha da Gama, Álvares Cabral e Náutico Brasil, muito concorridas e paixão de muitos (trenei um ano no Saldanha).
Essas são apenas algumas recordações da Vitória dos anos 60, que tive o privilégio e o prazer de desfrutar. E a dinâmica Vitória de hoje? A despeito do trânsito difícil, da violência (comum às capitais brasileiras), ficou ainda mais bela e cativante. A meu ver, uma das melhores cidades para se viver.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta