Messias Donato foi retirado pelo próprio partido, o Republicanos, do colegiado. Na Câmara, o deputado até comeu melancia para provocar um general. A coluna esteve no gabinete do parlamentar, em Brasília
Deputado federal Messias DonatoCrédito: Letícia Gonçalves
Nos gabinetes dos deputados federais eleitos pelo Espírito Santo, em Brasília, as fotos que decoram o ambiente normalmente são do presidente Lula (PT), do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ou uma reprodução gigante da imagem do próprio parlamentar. Na sala de Messias Donato (Republicanos), porém, o porta-retrato exibe um registro dele ao lado de Euclério Sampaio (União Brasil).
O prefeito de Cariacica é o principal aliado de Donato, ex-vereador e ex-secretário municipal na cidade. O parlamentar exerce o primeiro mandato na Câmara dos Deputados.
Enquanto a coluna estava lá, na semana passada, o deputado perdeu a vaga de titular que ocupava na CPI do MST. Foi retirado do posto pelo próprio partido.
Euclério se apresenta como um político de direita, mas é próximo do governador Renato Casagrande (PSB) e, à exceção do PT, relaciona-se bem com todas as forças políticas de Cariacica.
Messias Donato, por sua vez, associa-se à ala mais radical do bolsonarismo.
Protagonizou, por exemplo, uma cena pitoresca ao comer melancia para provocar o general Gonçalves Dias, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo Lula. Quis dizer que o militar é "verde por fora e vermelho por dentro", uma alusão infantil ao comunismo. O general prestou depoimento à CPI do MST em 1º de agosto.
Apoiadores do presidente da República usaram o vídeo do momento, contendo apenas alguns segundos, para exaltar Rainha e criticar os bolsonaristas que compõem a comissão, ainda que o episódio tenha sido pouco relevante. "Fazer VT", ou seja, promover cenas que viralizem nas redes sociais, é a estratégia favorita de ambos os lados.
Não foi devido ao desempenho na oitiva de José Rainha que o deputado do Espírito Santo perdeu o assento na CPI, como chegaram a afirmar alguns petistas, reservadamente, à coluna.
É que o Republicanos, outrora independente em relação ao governo Lula, está perto de passar a integrar a gestão.
O líder do partido na Câmara, Hugo Motta (PB), enviou um ofício ao presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), informando o desligamento de Messias Donato e do suplente Diego Garcia (PR) da CPI do MST. Os dois são bolsonaristas. Ao retirá-los, o partido do Centrão mostra que está mesmo imbuído do espírito governista.
Além disso, Messias Donato tem votado contra as orientações da legenda. O Republicanos, por exemplo, postou-se favoravelmente à aprovação da reforma tributária. O deputado do Espírito Santo votou contra.
E, mesmo se o partido ocupar um ministério, Messias Donato diz que vai continuar na oposição. Argumentou, em conversa com a coluna, que não pode apoiar o governo porque é cristão e defende a família.
Questionado sobre qual proposta que contraria esses valores, respondeu: "Você viu a portaria do Ministério da Saúde?". Ele se referia, na verdade, a uma resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS), órgão que dá apenas sugestões, não decisões.
A resolução tem 59 orientações para que o Ministério da Saúde formule o Plano Plurianual (PPA) e o Plano Nacional de Saúde (PNS). Entre os pontos, sugere a legalização da maconha e do aborto no Brasil, o que não foi incorporado pelo ministério. Até porque, isso nem poderia ser feito por conta apenas da pasta.
Messias Donato é pastor da igreja Quadrangular e, assim como outros integrantes da bancada evangélica, insurgiu-se contra a resolução, ainda que o texto não tenha efeitos práticos.
O Republicanos se apresenta como "o verdadeiro partido conservador do Brasil". Embora tenha sido criado como um braço político da igreja Universal, a legenda ganhou força no governo Bolsonaro e passou a adotar um discurso mais ideológico. Isso entra em conflito com a natureza das siglas do Centrão, que é a de apoiar qualquer governo, desde que haja cargos e verbas em troca.
"Espero que não aconteça a integração do Republicanos ao governo Lula. Se isso ocorrer, vai ser uma grande decepção"
Messias Donato (Republicanos) - Deputado federal
A CPI do MST tem como objetivo "investigar a atuação do grupo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), do seu real propósito, assim como dos seus financiadores".
Na prática, procura fustigar o governo Lula, uma vez que lideranças do PT, historicamente, são próximas do MST. E o governo, agora, reagiu.
Ao todo, houve 17 mudanças na CPI, a pedido dos próprios partidos dos membros ou suplentes.
TRAJETÓRIA
Messias Donato era filiado ao PP em 2008, quando tentou se eleger vereador em Cariacica. Não foi eleito. Ele chegou lá em 2012, pelo PTdoB. Em 2016, não foi reeleito.
Por indicação de Euclério, então deputado estadual, foi convidado por Erick Musso (Republicanos), que presidia a Assembleia Legislativa, para comandar o setor de segurança da Casa.
Em 2021, quando Euclério assumiu a prefeitura, Messias Donato tornou-se chefe de gabinete e depois secretário de Governo de Cariacica. Foi eleito deputado federal em 2022, com 42.640 votos.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.