Em julho, Romeu Zema participou de evento em comemoração aos 65 anos da Findes, em VitóriaCrédito: Ricardo Medeiros
O Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud), do qual fazem parte os estados dessas duas regiões do Brasil, reuniu-se oito vezes, mas ganhou destaque recentemente, após entrevista concedida pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), ao Estadão. Ele defendeu uma frente pelo protagonismo do Sul e do Sudeste, já que o Norte e o Nordeste, segundo o governador, estão "muito à frente".
Em junho, no último encontro do Cosud, em Minas, ele chegou a afirmar que os sete estados do Sul e do Sudeste, "diferente da grande maioria", têm "uma proporção muito maior de pessoas trabalhando do que vivendo de auxílio emergencial".
O antagonismo com o Nordeste pegou mal nas duas ocasiões e provocou um tom de divisão entre os estados, que foi rechaçado por diversos governadores.
Entre eles, está Renato Casagrande (PSB), do Espírito Santo. Embora esteja no Sudeste, o estado não tem tanto em comum com potências territoriais e populacionais como Minas e São Paulo.
Aliás, 31 municípios do Espírito Santo estão na área da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), que concede incentivos fiscais para a atração de empresas e projetos. O número corresponde a quase 40% das cidades capixabas.
O estados do Nordeste conseguem se articular porque, via de regra, têm objetivos comuns. No Sudeste, não é bem assim. O Espírito Santo, principalmente, destoa dos vizinhos.
Um exemplo é a Reforma Tributária, justamente o pano de fundo para as declarações de Zema.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) aprovada pela Câmara dos Deputados e que vai ser debatida pelo Senado prevê a criação de um Conselho Federativo.
Esse colegiado ficaria responsável pela arrecadação do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), substituto do ICMS estadual e o ISS municipal. O Conselho, formado por representantes de estados e municípios, faria o repasse das receitas.
Pela nova lógica aprovada na Câmara, o dinheiro do IBS vai irrigar mais os estados que são o destino das mercadorias e serviços e não os que produzem os bens. Isso, por si só, já beneficia quem tem uma população maior. São Paulo que, além de ser um grande centro consumidor, é produtor, busca uma solução particular.
O modelo de governança do Conselho provoca divergências entre os governadores. Se, na tomada de decisões, cada estado tiver direito a um voto e os do Norte e Nordeste se juntarem — como têm objetivos em comum, isso é bem possível —, os das demais regiões seriam derrotados, sempre.
"Pode ter o Conselho, mas proporcional. Se temos 56% da população, nós queremos ter peso equivalente", defendeu Zema, na entrevista ao Estadão, referindo-se ao percentual da população brasileira que reside no Sul e no Sudeste.
Só que, se a população dos estados for levada em consideração, o Espírito Santo vai se dar mal. É o 15º no ranking nacional, com 3.833.486 habitantes. Sem falar que, muitas das vezes, os interesses capixabas podem não coincidir com os dos ricos vizinhos.
Ao lado de Zema, Casagrande mostra um prato com fígado de porco no Mercado Central de BHCrédito: Hélio Filho/Secom ES
"Estabeleceu-se que a votação é por maioria absoluta, sendo que essa maioria absoluta tem que alcançar 60% da representação da população nos estados. Achamos que isso também favorece os estados mais populosos. Seria melhor a maioria absoluta com o mínimo de 50% dos votos de cada região do Brasil".
Com "50% dos votos de cada região", o governador do Espírito Santo quis dizer que, no Sudeste, que possui quatro estados, os votos de dois deles teriam relevância, independentemente do tamanho da população.
Essa e outras sugestões de alterações na reforma foram levadas por Casagrande ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD).
A questão é que, além de ser pouco republicano promover uma guerra política regional, o Espírito Santo não tem a ganhar se opondo aos estados do Nordeste.
Por isso, Casagrande apressou-se a publicar, no X (antigo Twitter): "Sobre a entrevista do Governador Zema (MG) para o jornal Estado de SP, é importante deixar claro que é sua opinião pessoal. O ES participa do Cosud para que ele seja um instrumento de colaboração para o desenvolvimento do Brasil e um canal de diálogo com as demais regiões".
O próprio Zema recorreu à rede social para tentar conter o incêndio:
"A união do Sul e Sudeste jamais será pra diminuir outras regiões. Não é ser contra ninguém, e sim a favor de somar esforços"
Romeu Zema (Novo) - Governador de MG
O título original da entrevista concedida por Zema ao Estadão falava em frente "contra o Nordeste". Depois, mudou para "Zema anuncia frente para ‘protagonismo’ do Sul-Sudeste e quer direita unida contra a esquerda".
Minas Gerais tem 249 municípios na Sudene, o que corresponde a 29% do total de cidades do estado.
ELEIÇÕES 2026
Zema diz que o Cosud não decolou antes porque o então governador de São Paulo, João Doria (na época, filiado ao PSDB), era pré-candidato à Presidência da República, o que contaminava o debate.
O próprio Zema, porém, é um dos nomes mais lembrados para disputar o Palácio do Planalto em 2026, como herdeiro do bolsonarismo.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.