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23 de maio

O Espírito Santo não foi simplesmente "colonizado" e sim conquistado

A Capitania foi palco de um dos mais sangrentos conflitos do Brasil colonial. Os povos originários foram massacrados e o filho do então governador-geral, Mem de Sá, morreu na batalha

Publicado em 23 de Maio de 2024 às 02:15

Públicado em 

23 mai 2024 às 02:15
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

Mural em São Mateus, feito pelo artista Thiago Rabelo retrata a Batalha do Cricaré
Mural em São Mateus, feito pelo artista Thiago Rabelo, retrata a Batalha do Cricaré Crédito: Divulgação
A "descoberta" e a colonização do Brasil por portugueses não foi nada pacífica. E a Capitania do Espírito Santo virou palco de uma das batalhas mais emblemáticas do período colonial. 
Até o filho do então governador-geral, Mem de Sá, foi morto em terras capixabas. Os povos originários lutaram bravamente, mas, por fim, foram massacrados.
É uma história escrita com sangue, bem diferente da troca de espelhos e pau-brasil entre europeus e indígenas que me contaram quando eu estudava, em escolas públicas, nos ensinos fundamental e médio.
Se o Espírito Santo era mencionado em sala de aula, o único episódio lembrado era o de 1549, quando o donatário Vasco Fernandes Coutinho e os demais colonos tiveram que deixar Vila Velha (então Vila do Espírito Santo) e se estabelecer em Vitória, batizada na época de Vila Nova do Espírito Santo. 
Eles partiram "fugidos" dos indígenas, o que indicava que havia conflitos violentos. Afinal, é difícil alguém aceitar ter sua casa e suas terras invadidas e se contentar com espelhinhos.
Neste 23 de maio, comemora-se a Colonização do Solo Espírito-Santense, pois foi nesta data que Coutinho chegou à Prainha, em 1535. Não nego que seja um marco importante da história capixaba, mas celebrar um genocídio não faz sentido algum, como bem escreveu o colunista Leonel Ximenes.
Na minha época de estudante, não havia internet acessível (para mim) para pesquisar mais sobre isso, nem muito material, aprofundado, a respeito na biblioteca.
Eu já havia ouvido falar da Batalha do Cricaré, mas foi somente ao ler "A Conquista do Brasil", de Thales Guaracy (Editora Planeta, 2015), que tive a dimensão do que ocorreu em 1557, onde hoje é o município de São Mateus.
Guaracy apresenta, com dados, registros históricos e um texto não acadêmico, ou seja, não enfadonho, como o Brasil foi, na verdade, conquistado. 
Vinte e dois anos após desembarcar na Capitania do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho pediu socorro urgente a Mem de Sá, pois não conseguiria segurar todos os ataques, embora desferisse duros golpes nos nossos antepassados silvícolas (sim, sei que os portugueses daquela época também são antepassados de muitos de nós).
O governador-geral enviou o próprio filho, Fernão de Sá, como líder de uma esquadra. Fernão localizou, na barra do Rio Cricaré, três "aldeias indígenas hostis" que, vejam só, não queriam que os invasores portugueses desembarcassem por lá, os subjugassem e tomassem conta de tudo.
Ainda de acordo com o livro "A Conquista do Brasil", os indígenas se organizaram e conseguiram vencer a esquadra. Fernão de Sá foi morto na batalha.
Mas outra força-tarefa foi enviada pelo governador-geral, comandada por seu sobrinho, Baltazar. Os moradores locais das aldeias, desta vez, foram majoritariamente exterminados:
“Baltazar de Sá, meu sobrinho, com os demais da armada combateram, entraram e mataram os que mais nela estavam”, relatou Mem de Sá, conforme citado no livro. “O que foi causa de (os índios) pedirem paz e se submeterem com toda obediência".
"Paz" para quem? "Obediência" ou rendição para sobreviver em uma situação desesperadora?
"Mem de Sá prosseguiu sua campanha para pacificar as outras capitanias, uma a uma, passando os índios a fio de espada", escreveu Thales Guaracy.
Os passados a "fio de espada" foram os primeiros capixabas, os que aqui estavam antes da "descoberta" e da colonização.
Em tempo: após o ensino médio eu estudei no Projeto Universidade Para Todos (PUPT), que não tem a ver com o Prouni do governo federal.
Era um pré-vestibular voltado a alunos de escolas públicas e, digamos, pouco favorecidos economicamente. Não cobrava mensalidade, tinha apoio do governo estadual, de prefeituras e empresas. 
Os professores de lá eram os mesmos dos cursinhos mais caros de Vitória e eu fiquei maravilhada com tanto conhecimento à disposição. Li muitos outros livros e fui aprovada no vestibular da Ufes.
Não desmereço a educação que recebi nos ensinos fundamental e médio. Talvez, sem essa experiência, eu não conseguiria nem discernir o que era relevante aprender.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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